
- Vale de Uco. Ao fundo o vulcão Tupungato
Enquanto Mendoza é a região vitivinícola mais importante da Argentina, responsável por 70% do vinho, não se pode dizer que seja um mar homogêneo de Malbec. Cada distrito, dentro de Mendoza, pode se orgulhar de sua própria interpretação desta cepa tinta. Se quisermos generalizar podemos dizer, por exemplo, que o vinho de Malbec foi produzido com uvas do Vale de Uco somente. Todavia, não podemos diexar de lado o que está acontecendo em regiões como San Carlos, Tunuyan e Tupungato, porque a diferença de vinhos da mesma cepa impressiona até o mais desatento dos degustadores. O mesmo raciocínio vale para a DOC Luján de Cuyo, uma vez que existem alguns excelentes vinhos provenientes dos subdstritos de Agrelo, Perdriel, Vistalba e Ugartche e cada vez mais de Maipú e subsdistritos de Cruz de Piedra, Las Margaritas e Lunlunta. Se a Malbec exerce o papel inconteste de rei, o papel de rainha é protagonizado pela Torrontés, considerada a principal cepa branca da Argentina, sem a existência de similar internacional. Essa uva branca aromática é encontrada exclusivamente no país platino, onde uma grande variedade de vinhos de estilos diferentes são produzidos conforme sua região de origem. A Torrontés de Cafayate, no Vale do Calchaquíes (província de Salta), é o exemplar mais exótico e excitante e que procura exprimir o máximo caráter varietal desta cepa. Ela normalmente exibe um aroma floral que praticamente é a sua assinatura, notas de especiarias e uma doçura que faz pensar que se trata de um vinho doce. Ledo engano. A Torrontés produz um vinho seco e de bom frescor que acompanha bem comida oriental e empanadas.

- Propriedade da Serrera em Tupungato
Nesse contexto, a Serrera Wines (www.serrera.com.ar) nasceu da confluência de interesses de três amigos, a saber: Hernán Cortegoso, Vito Ramonda e Andrés Beutin. A seguir o perfil de cada um:
Hernán Cortegoso é o principal enólogo e com toda sua sinceridade e alegria, produz vinhos sinceros “que não procuram ser o que não são (frase de Didú Russo)”. Tem um currículo respeitável: está no comando das vinhas e da produção do vinho. Engenheiro Agrícola e Enólogo, iniciou sua carreira na área do vinho, sendo responsável pela produção de uvas finas para as empresas internacionais (Grupo Pernod Ricard, Trapiche, Zuccardi, Navarro Correas, Chandon, Henri Piper, Gancia, etc.). Atualmente é o responsável pelo desenvolvimento e execução de projetos de produção de vinhos, apoiado por profissionais reconhecidos da França, Austrália, Estados Unidos, Israel e África do Sul entre outros. Seu conhecimento das diferentes regiões vitivinícolas levou à busca de novas oportunidades e potencialidades nos variados terroirs platinos. Por fim, atualmente coordena as técnicas de vinificação da Bodega Marton Andina.
Vito Ramonda é o Gerente Administrativo da vinícola e cuida das vendas para o mercado interno e externo. É formado em contabilidade pela Universidad Nacional de Cuyo e tem apego às montanhas e à natureza de Mendoza. Serviu em diversas forças-tarefa, emprestando seus conhecimentos e experiência na organização e gestão de empresas de prestígio. Responsável pela gestão da administração da adega e da rede de vendas nacional e internacional.
Andrés Beutin faleceu recentemente aos 42 anos. Era um jovem empresário que sempre se relacionou com o turismo e serviços, com muitos anos de experiência e atuou em importantes empresas argentinas e européias.

Vito Ramonda, Andrés Beutin e Hernán Cortegoso
A Serrera – Marton Andina possui vinhedos em quatro regiões diferentes, que são classificados como “Terroirs”:
Terroir Tupungato
Terroir Lunlunta
Terroir Perdriel
Terroir Cordillera del Limite
Conta ainda com 120 hectares de plantações, 100 dos quais localizados em Tupungato e o restante em Lunlunta, Vale de Uco. Exporta sua produção para Áustria, Austrália, Brasil, Canadá, Dinamarca, EUA, França e Noruega.

- Passeio nos vinhedos
Em Tupungato, Vale de Uco, será construída a nova sede da vinícola. Tupungato é ovulcão que atinge 6.800 metros de altura e que só perde para o pico Aconcágua. Sua extensão é de 60 km de norte a sul e tem largura aproximada de 20 km. Além de frutas, mais de 15 mil hectares de videiras plantadas e irrigadas com águas do rio Tunuyan, cujas águas formam um notável aqüífero subterrâneo.
O clima é temperado e as noites no verão são frescas. A amplitude térmica e a localização privilegiada dos vinhedos permitem uvas de uma grande expressão aromática, possibilitando a elaboração de vinhos complexos e elegantes. É um vale cobiçado pelos grandes vinicultores porque produz uvas de alta qualidade, de caráter varietal distinto e concentração adequada para a elaboração de vinhos finos. Conhecendo o bom desempenho de variedades brancas no vale, a Serrera também está a cultivar cepas como Chardonnay, Sauvignon Blanc e Semillón. Na ala das tintas, existe uma distribuição equilibrada das variedades Cabernet Sauvignon, Malbec, Merlot, Tannat e Tempranillo.
Na área superior de Lujan de Cuyo, perto da Ruta 40, o Rio Mendoza exerce sua influência sobre um lugar pequeno, único, apontado como um dos terroirs mais interessantes da Argentina. Esse lugar chama-se “Lunlunta”, onde são cultivadas as uvas do principal vinho da Bodega, o Serrera Gran Guarda.

- Vinhedo na sede da vinícola em Lunlunta
Por isso, o vinhedo La Serrera é pequeno no tamanho, mas importante para a Marton Andina. Os donos da vinícola separaram pessoalmente as vinhas que foram recuperadas, como originalmente plantadas no início do século passado e ficaram atônitos com a vitalidade das plantas. Além disso, executam com suas próprias mãos todas as atividades para elaboração do vinho, desde cavar buracos para as instalações, plantando, regando, efetuando cura, poda, colheita, etc.
Sobre Lunlunta
Lunlunta é um pequeno paraíso para as vinhas por conta de sua calmaria, berço ideal para os grandes vinhos. A Malbec sempre desempenhou papel fundamental nesta área, permitindo a produção de vinhos com grande potencial. Todavia, na busca pelo “terroir” que proporcione vinhos originais e complexos, foram plantadas pequenas parcelas de outras variedades que possibilitem elaborar um vinho feito à partir de um blend ou lote de uvas. Assim, o Vale de Lunlunta é importante na história da Serrera. Seu solo é altamente pedregoso e permite uma boa drenagem das videiras. A produção é pequena e os vinhos apresentam boa extração de cor e de aromas. Para os nativos, cada colheita em Lunlunta é como um milagre, o “milagre do outono”.

Vinhos Serrera

Espumante Serrera: Chardonnay e Chenin Blanc em partes iguais
Impressões sobre os vinhos
O Serrera Bonarda 2008, um dos melhores caldos degustados em toda a viagem:redondo, limpo, sem excessos de madeira ou de álcool, sem retoques ou truques e que valoriza a casta, com tipicidade, boa acidez e taninos macios. Deveria estar na carta das melhores cantinas de São Paulo. É o tipo de vinho “best value for money” .
Já o Serrera Malbec 2008, se mostrou superior ao exemplar 2007 provado em 12.05.2009. Tem o mesmo estilo dos outros vinhos com a fruta desempenhando o papel principal e a exemplo dos dois exemplares anteriores também não faz mal para o bolso. O Serrera Syrah 2007 não apresentou evolução significativa e teve sua nota inalterada – a mesma dada em maio de 2009 (85/100 pts.). Apresenta nos aromas nuances da casta antigamente conhecida na Argentina por “Balsamina”.
Por fim, o Serrera Gran Guarda 2006, lote das uvas Malbec, Cabernet Sauvignon e Tannat em proporções não divulgadas, confirmou a assertiva de que a safra 2006 foi uma das melhores dos últimos anos na Argentina. Denso, sedoso e com camadas de frutas consegue conciliar potência com elegância. Já está pronto, mas deverá apresentar ótima evolução na garrafa nos próximos anos. Segundo informação de Vito Ramonda, obteve 89/100 pts. da Wine Advocate de Robert Parker.

Após a degustação, homenagem a Andrés Beutin, um dos donos da vinícola morto recentemente
Cabe destacar que a degustação contou com serviço do vinho correto e ao final foi servido um delicioso churrasco argentino. Antes, porém, foi feita homenagem a Andrés Beutin (42 anos), sócio falecido recentemente, com discursos emocionados de Vito Ramonda, Hernán Cortegoso e Niels Bosner (Hannover).

Os vinhos Serrera são importados para o Brasil através da Hannover, com sede em Porto Alegre e representação em São Paulo (Capital – tel 011 2638 0881).

Abaixo a descrição e avaliação dos vinhos degustados no dia 25.03.2010:
Serrera Reserva Torrontés – safra: 2009 – álcool: 12,8% – região: Maipú/Mendoza -preço: R$ 44,00 – produzido com uvas da “Finca Beltrán”, que tem vinhedos de mais de trinta anos e o solo é argilo-pedregoso, este delicioso Torrontés Riojano apresentou coloração palha claro límpido e brilhante. Nariz vegetal com toques de erva cidreira sobre um fundo floral. Não é muito complexo nem intenso, porém, não chega a ser enjoativo, ao contrário é agradável aromaticamente. Na boca compensou o caráter unidimensional com muito frescor, maciez e uma pontinha cítrica. Guloso e pleno no meio de boca apresentou harmonia com as famosas “empanadas argentinas”. Terminou intenso e sem nenhum amargor. Tem relação preço-qualidade e na opinião de quem escreve essas linhas é um dos melhores exemplares dessa casta platina. Possui vocação gastronômica, principalmente comida asiática. Avaliação: 88/100 pts.

churrasco argentino
Serrera Del Pecado Malbec/Cabernet Sauvignon (parte iguais) – safra: 2008 – álcool: 14% – regiões: Lunlunta e Perdriel/Luján de Cuyo/Mendoza – preço: R$ 32,00 – Elaborado com uvas de vinhedo de mais de 90 anos, apenas 20% do mosto passa por infusão de carvalho. Cor rubi violáceo com alguma intensidade. Simples e franco no nariz com sugestões de frutas vermelhas e leve toque de ameixa. Na boca confirma o nariz com boa fruta, taninos macios e corpo adequado. Fácil de beber é uma prova inconteste de que a Cabernet Sauvignon é a parceira ideal da Malbec. Termina sem adstringência e possui relação preço-qualidade atraente para o consumidor. Um bom vinho para o dia-a-dia. Avaliação: 86/100 pts.

Serrera Moments Malbec – safra: 2007 – álcool: 13,8% – regiões: Lunlunta e Perdriel/Luján de Cuyo/Mendoza – preço: R$ 44,00 – Rubi violáceo com mais intensidade do que o exemplar anterior. Nariz com os aromas típicos da casta: leve compota de ameixa e uma pontinha láctea sobre um fundo chocolate. Boca franca, redonda, taninos macios, madeira bem entrosada com a fruta, corpo bom e boa acidez. Termina com uma ponta de adstringência. Avaliação: 86/100 pts.
Serrera Reserva Bonarda – safra: 2008 – álcool: 14% – região: não indicada , apenas “parreiral antigo (40/45 anos) de baixa produção” – preço: R$ 44,00 – amadurecido em barricas de carvalho por oito meses é um dos vinhos mais emblemáticos dessa vinícola por conta de sua consistência porque apresenta pouca variação a cada nova safra. Sua cor é rubi violácea profunda com reflexo púrpura. Entrega aromas frutados no nariz com destaque para amoras, ameixas e framboesa. Na boca não é um vinho sofisticado ou luxuriante. É simples, franco e de perfil nitidamente gastronômico por conta de sua acidez. Seus taninos estão discretamente presentes e concorrem para o equilíbrio do conjunto. Sem sobra de álcool ou excesso de madeira, é um vinho que privilegia a fruta e que demonstra o bom trabalho do enólogo da vinícola no manejo da cepa. Um vinho para o dia-a-dia que demonstra o potencial da casta. À conferir. Avaliação: 88/100 pts.
Serrera Reserva Syrah – safra 2007 – álcool: 14% – região: Valle de Guanacache, entre San Juan e Mendoza – preço: R$ 44,00 – O Vale de Guanacache está situado no sopé da Cordilheira dos Andes, perto da fronteira entre as províncias de San Juan e Mendoza. Este lugar é árido e a Syrah demonstra boa adaptação, porque o clima apresenta maior rigor durante o dia, mas frio à noite, com grande semelhança geográfica e climática com algumas áreas de cultivo da Austrália, líder mundial na produção dessa casta. Análise organoléptica: rubi intenso, exibiu aromas mentolados com uma ponta de especiarias confirmando a tipicidade da casta. Uma notinha terrosa e herbácea completa o conjunto. Na boca um degrau a menos, a sua entrada é quente, picante, alguma adstringência, média concentração de sabor com fruta fresca e corpo bom. Intenso, termina com leve aspereza no limite do aceitável. Avaliação: 85/100 pts.
Serrera Reserva Malbec – safra 2008 – álcool: 14% – regiões: Lunlunta e Perdriel/Luján de Cuyo/Mendoza – preço: R$ 44,00 – Rubi violáceo intenso, concentrado e profundo. No nariz subscreve os aromas típicos da casta com violetas, frutas negras sobre um fundo balsâmico. Na boca apresenta taninos macios, boa fruta sem conflito com madeira e bom frescor. Fácil de beber é um vinho bem moldado que nesta safra está demonstrando mais equilíbrio e tipicidade do que na safra anterior. Bom para churrascos e detentor de relação preço-qualidade. Avaliação: 87/100 pts.

Rio Mendoza - 400 km de extensão
Serrera Gran Guarda – safra 2006 – álcool: 13,5% – regiões: Perdriel e Lunlunta – uvas: Malbec, Cabernet Sauvignon e Tannat – preço: R$ 130,00 – elaborado com uvas de vinhedos de mais de 90 anos de idade numa altitude de 950 metros, amadurecido em barricas de carvalho de primeiro uso durante 12 meses e afinado na garrafa por mais 12 meses antes de sua liberação para o mercado, o Serrera Gran Guarda é o vinho “topo de gama” da bodega. Análise organoléptica: Cor rubi violáceo intenso e profundo sem halo de evolução. Nariz fino com notas balsâmicas, violetas, madeira de boa qualidade, leve chocolate, frutas negras e uma discreta ponta de mentol. Boca macia e volumosa a denunciar um vinho estruturado com taninos presentes de ótima qualidade. Profundo, de acidez adequada e de grande persistência e profundidade no palato. Fruta e madeira integradas. Fim de boca suave, adocicado e sem adstringência. No retrogosto novamente notas de chocolate. Já demonstra o que será daqui alguns anos: um grande malbec com uvas oriundas de dois terroirs diferentes a formar um vinho gostoso e de longa guarda. No mínimo duas garrafas são indispensáveis na adega. Nesta safra, apontada com excelente em Mendoza, superou as expectativas deste degustador. Avaliação: 90/100 pts. +

Vale de Uco, ao fundo o vulcão Tupungato
Conclusão
O estilo dos vinhos Serra chamaram atenção. Não têm perfil aristocrático. A maioria são cortes da mesma uva, porém, de regiões diversas. São fáceis de beber, sem madeira em excesso e que procuram expressar o caráter varietal das cepas. Não são “bombados”, alcoólicos, “sucos de madeira” ou de baixa acidez como é de se supor. Aqui novamente cabe destacar o Serrera Bonarda, um vinho feito para mesa por preço acessível (R$ 44,00). É uma demonstração inequívoca de que a Argentina não produz somente ótimos Malbecs porque outras cepas tintas estão sendo bem trabalhadas. Outro destaque ficou por conta do Serrera Torrontés. É animador saber que Hernán Cortegoso tem domínio da cepa. Estudou em Cafayate, Vale Calchaquíes, Noroeste da Argentina, onde a Torrontés é mais cultivada do que a própria Malbec. Trouxe de lá experiência suficiente para moldar um dos melhores vinhos dessa casta no país platino. Não tem aromas pujantes e enjoativos e final amargo. Tem aquele toque vegetal, que lembra erva cidreira ou moscatel, mas sem os habituais exageros. Não é cansativo. Seu perfil é festivo, um vinho para ser bebido generosamente sem grande preocupação porque tem no frescor o seu maior apelo. Fez ótima parceria com as deliciosas empanadas porque é leve, picante, gostoso, para ser bebido como acompanhamento de aperitivos, pratos leves e comida oriental. Ou sozinho mesmo.Em Tupungato, após caminhadas nos vinhedos, colheita de uvas, explicações técnicas e degustação do Serrera Reserva Torrontés 2009, houve deslocamento para nova degustação de toda a linha de vinhos da Serrera em Lunlunta, Vale de Uco, bem perto da Cordilheira dos Andes.Na degustação, além do vinho top da casa, Serrera Gran Guarda 2006, três vinhos da linha reserva chamaram a atenção: Torrontés 2009, Bonarda 2008 e Malbec 2008. No quesito “preço-qualidade” o Serrera Del Pecado Malbec/Cabernet 2008 se destacou. Existe também um espumante, o Serrera “Reginato” Extra Brut, 12,6% de álcool, método Charmat, corte de Chenin Blanc e Chardonnay, método Charmat, que não é vendido para o Brasil.