Harmonização de Barreado com vinho no restaurante Tordesilhas de SP

Cris Couto, Ivo (Tordesilhas) e Agilson

Cris Couto (organizadora), Ivo (Tordesilhas), Agilson (idealizador do "Vamos à Montanha") e Walter Tommasi (Free Time)

Blogueiros reunidos no Tordesilhas para realização de harmonização de vinho e comida no ótimo restaurante Tordesilhas.
Blogueiros reunidos no Tordesilhas para realização de harmonização de vinho e comida no ótimo restaurante Tordesilhas.

Reunidos no restaurante paulistano Tordesilhas, no almoço de 18 de maio de 2010, diversos blogueiros e experts em enogastronomia convidados por Cris Couto, do ótimo blog sejabemvinho.blogspot.com, com a finalidade de eleger o melhor vinho para acompanhamento do prato típico do litoral do Paraná, denominado Barreado.

Sobre o Barreado.

Barreado é um prato típico do Paraná, especificamente da região de Morretes, uma pequena cidade histórica litorânea, próxima ao porto de Paranaguá, cujo acesso, pela Estrada da Graciosa e a partir de Curitiba, é um dos passeios mais lindos do estado (é este o meu pitaco). A chegada do barreado é atribuída aos açorianos, que povoaram boa parte do Sul do país. Sua técnica de cocção, originalmente, é feita em fornos subterrâneos, técnica de preparo utilizada por diversos povos antigos, como os da Polinésia, da África e das Américas.

Os pesquisadores apontam dois processos principais de cozimento subterrâneo. Um deles, mais primitivo (outro pitaco meu: não gosto deste termo, cheio de conotação negativa, mas amplamente usado. Prefiro antigo), atribuído aos polinésios e aos índios caiapó e jê de minas Gerais, consiste numa cavidade aberta, aquecida por brasas ou pedras sob fogo, onde o alimento, coberto por folhas ou colocado num recipiente, é cozido pelo calor. O segundo implica em colocar a comida numa cova aquecida, cobri-la com folhas e terra e acender sobre ela um novo fogo.


O Barreado é um prato de preparo demorado – de 12 a 24 horas – muito comum em datas festivas no início do século passado. Entre elas destacava-se, particularmente, o entrudo (nome dado ao carnaval na época), quando as donas de casa colocavam a carne para cozinhar numa panela de barro fechada e a enterravam sob uma fogueira. Acabada a farra, o prato estava pronto. O nome Barreado vem do fato de que, originalmente, as panelas eram seladas com barro, ou seja, barreadas. Atualmente, o Barreado é uma das principais atrações turísticas de Morretes, e está presente em todos os restaurantes da cidade. Hoje, é claro, não se cozinha em fornos subterrâneos, mas sobre chapas de ferro sobre uma fonte de calor, e nem se sela a panela com barro, mas com uma mistura de farinha de mandioca e água. Mas seu sabor continua sendo, para mim, inigualável, e o que me traz as melhores lembranças – talvez por isso seja o meu preferido: tão importante quanto o gosto é a memória a ele relacionada – a dos meus 18 anos, um grupo de amigos especiais em torno da mesa, um trajeto até a cidade espetacular, um país imenso por descobrir… De quebra, o prato ainda aquece o corpo e conforta a alma. Fontes: Ivo Ribeiro (Tordesilhas) com “pitacos” de Cris Couto (sejabemvinho.blogspot.com)

Abaixo segue a relação dos vinhos degustados na harmonização na ordem de classificação deste blogueiro:

11.- Domínio Vicari Riesling Itálico 2008 – Praia do Rosa – SC

10.- Vallontano Tannat 2005 – Vale dos Vinhedos – RS – Mistral

9.- Albariño Pazzo Podal 2006 – Rias Baixas/Espanha – Expand

8.- Lídio Carraro Pinot Noir Dádivas – Encruzilhada do Sul – RS

7.- Michele Chiarlo Barbera D’Asti 2006 – Itália/Piemonte/Zahil

6.- Lídio Carraro Grande Vindimia Merlot 2004 – Encruzilhada do Sul – RS

5.- Pizzato Merlot 2005 – Vale dos Vinhedos – RS

4.- Don Laurindo Estilo 2008 – Vales dos Vinhedos – RS

3.- Além-Mar, Villagio Grando – São Joaquim – SC

2.- Terranoble Pinot Noir Reserva 2008 – Vale de Casablanca/Chile/Decanter

1.- Muros de Melgaço Alvarinho 2008 – Portugal/Decanter

Antes dos trabalhos foi servido o espumante Brazilian Soul Demi-Sec da Cooperativa Aurora, que apresentou doçura exagerada aliada a baixo frescor.

Abaixo a descrição e avaliação dos vinhos consoante escolha deste participante, com observação de que a média final refere-se ao vinho na harmonização e não somente ao vinho individualmente considerado:

11. Domínio Vicari Riesling Itálico 2008 – palha esverdeado com reflexo brilhante. Pouco típico no nariz e sem complexidade. Tem uma nota forte de pólvora sobre um fundo terroso nos aromas e pouca expressão gustativa na boca, com um amargor que prejudica qualquer tipo de harmonização.

Nota: 78/100 pts.

10.- Valontano Tannat 2005 – 13,5% álcool - Rubi violáceo com halo granada. Fechado. Leve nota de couro. Decadente. Boca densa, rústica e desequilibrada. Apresentou elevado amargor no fim-de-boca e isso prejudicou a harmonização.

Importadora Mistral– preço: R$

Nota: 81/100 pts.

9.- Albariño Pazo Podal 2006 Palha claro com reflexos esverdeados. Finos aromas florais. Na boca é um vinho maduro, de acidez delicada e um pouco magro. Seu amargor aliada à sua pouca estrutura para o prato impediram harmonização. Sozinho ou com outro prato mais leve, merece ser provado porque tem tipicidade.

Importadora Expand – preço: R$ 69,90

Nota: 82/100 pts.

8.- Lídio Carraro Pinot Noir Dádivas 2009 Rubi esmaecido com pouca concentração. Nariz fechado com leve mentol sobre um fundo de morangos. Melhor na boca, porém, não o suficiente para harmonizar com o prato proposto. Aqui, o grande entrave foi a pouca densidade do vinho que não suporta a carne do prato, todavia, o vinho tem alguma tipicidade e se mostrou fácil de beber e sem amargor.

Nota: 82,5/100 pts.

7.- Michele Chiarlo Barbera D’Asti “L’Orme” 2006 Rubi violáceo com halo granada. Nariz com alguma expressão e complexidade com notas de fruta madura e chocolate. Apesar de sua boa acidez, faltou-lhe concentração de sabor e taninos para suportar o prato. Um vinho de ótima procedência, contudo, Barreado não é o prato adequado para harmonizá-lo.

Importadora Zahil – preço: R$ 44,00

Nota: 84/100 pts.

6.- Lídio Carraro Grande Vindimia Merlot 2004 Rubi violáceo profundo com reflexo granada. Nariz complexo com mentol, geléia de frutas vermelhas, tabaco sobre um fundo terroso. Boca intensa, longa, rugosa, taninos jovens e poderosos. Acidez média/baixa. Harmonização possível, contudo, não chega a entusiasmar. Com arredondamento do vinho na garrafa a madeira dará espaço para um melhor afinamento do conjunto, um pouco desequilibrado, não a ponto de inviabilizar a harmonização.

Nota: 85/100 pts.

5.- Pizzato Merlot 2005 – Rubi violáceo intenso, profundo com discreto halo granada. Nariz com alguma tipicidade com notas de ameixas, tabaco e especiarias. Boca no mesmo diapasão com taninos presentes, acidez baixa e madeira sobrando um pouco. Termina longo, intenso e um pouco duro .Harmonizou com o prato, mas não houve o surgimento de um terceiro sabor, isto é, não acrescentou sabores ao prato. Mas também não prejudicou.

Nota: 85,5/100 pts.

4.- Don Laurindo Estilo 2008 – blend de Malbec, Tannat e Ancelotta - Rubi violáceo intenso, profundo, concentrado com halo púrpura. Começou fechado e alcoólico a lembrar vinho fortificado. Depois apresentou uma nota de frutas negras (ameixas, amoras e framboesas). Na boca subscreveu esses aromas e no momento a madeira aparece um pouco mais que o desejável, não o suficiente para impedir harmonização, eis que a força do vinho se coaduna com a imponência do prato. Taninos, acidez e álcool dão vigor a este vinho que arrancou elogios de Álvaro Cezar Galvão (divinoguia.blogspot.com) e Walter Tommasi. De fato, os assemblages desta tradicional vinícola brasileira são consistentes e harmônicos e este “Estilo 2008″ não foge desse padrão. Mais algum tempo na garrafa lhe fará bem. À conferir

Nota: 86/100 pts.

3.- Além-Mar 2008 (amostra de barrica)- Villagio Grando – após uma acirradíssima peleja com o chileno que ocupa o segundo lugar, este delicioso catarinense ficou honradamente com essa colocação. Vinho gastronômico por excelência, harmonizou bem com o prato por conta da textura de seus taninos e acidez de viés nitidamente gastronômico. É um vinho que já nasce campeão e que em pouco tempo chegará ao mercado com reais possibilidades de se tornar um verdadeiro expoente de sua região. Harmonização aprovada.

Nota: 88/100 pts.

2.- Terranoble Pinot Noir Reserva 2008 – Rubi violáceo intenso, profundo com alguma concentração. Apresentou uma paleta aromática medianamente complexa com fruta vermelha sobre um fundo de compota. Melhor mesmo na boca. Mesmo sem ostentar a tipicidade esperada, a harmonização do Barreado com esse tipo de vinho se impõe pelo mesmo motivo que os vinhos chilenos são conhecidos no mundo todo: seu preço. Custa na faixa de R$ 70. Ainda que esse preço não seja ideal, é menor do que o campeão da harmonização, que custa na faixa de R$ 124,30 e, coincidentemente do mesmo importador (Decanter). Vale à pena prová-lo com o Barreado, porque o perfil do vinho combina com o prato.

Nota: 88,5/100 pts.

Barreado do Tordesilhas: um prato típico do litoral paranaense que harmonizou muito bem com Alvarinho português.

Barreado do Tordesilhas: um prato típico do litoral paranaense que harmonizou muito bem com Alvarinho português e Pinot Noir chileno.

1.- Muros de Melgaço Alvarinho 2008 – Palha brilhante com reflexos esverdeados. Fino e complexo nos aromas e no palato. Denso, encorpado e untuoso, sem ser pesado, casou perfeitamente com o prato. No campo das harmonizações tudo é possível, inclusive a derrubada de paradigmas que não deixa de ser uma demonstração de criatividade. A minha nota só não foi maior por conta do preço do vinho, R$ 124,30 na importadora (Decanter). No Restaurante Tordesilhas, o preço “per capita” do Barreado é da ordem de R$ 55,00 o que perfaz R$ 110 para um casal. O vinho dificilmente custará o preço da importadora, o que inviabiliza desse ponto de vista a harmonização, porque o vinho é mais caro do que o prato. Todavia, voltemos à harmonização em si. No caso, entendo que se deu por semelhança, eis que tanto o prato como o vinho são untuosos. O Alvarinho normalmente não passa por madeira, mas este tem fermentação e amadurecimento durante 6 meses por barrica francesa de primeiro uso, que lhe aportou estrutura e elegância. Muito fresco, ao ser degustado causou uma sensação deliciosa no palato, prolongando o sabor do Barreado.

Nota: 89/100 pts.

Abaixo segue a classificação do grupo (notas de 0 a 10):

1- Muros de Melgaço 2008 – Alvarinho – Portugal – 8,44

2-Terranoble Reserva Pinot Noir 2008 – Chile – 8,06

3-Além Mar – Villagio Grando 2008 - Brasil – 7,94

4-Lídio Carraro Merlot Grande Vindima 2004 – Brasil – 7,50

5- Pazo Pondal 2006 – Rias Baixas – Albariño – Espanha - 7,19

6- Barbera D`Asti l´Orme 2006 – Michele Chiarlo – Piemonte – Itália – 6,75
7- Don Laurindo Estilo 2008 – Brasil - 6,75

8- Pizzato Reserva Merlot 2005 – Brasil - 6,19
9- Dadivas Pinot Noir – Lidio Carraro 2009 – Brasil – 5,94

10- Dominio Viccari Riesling 2008 – Brasil – 5,31
11- Vallontano Tannat 2005 – Brasil – 5,13

Abaixo o rol de participantes do 1° encontro de harmonização coordenado por Cris Couto:

http://sejabemvinho.blogspot.com
http://www.academiadovinho.com.br
http://papodevinho.blogspot.com
http://www.blogdojeriel.com.br
http://falandodevinhos.wordpress.com

http://wtommasi.blogspot.com

http://www.tordesilhas.com.br

Crédito da foto: Editora Abril.

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