Unidos pela Cordilheira: mais um confronto de vinhos Chile x Argentina

Argentinos e chilenos se uniram em Mendoza para confrontar  24 grandes vinho de cada país. A Editora do portal chileno Planeta Vino, Mariana Martínez Síguela, conta todos os detalhes (texto traduzido por Jeriel).

Mariana Martinez Siguela, editora do portal chhileno “Planeta Vino”

Nós fizemos isso de novo! Mas nunca com tanta incerteza como desta vez. Cerca de trinta chilenos cruzaram a Cordilheira dos Andes  num final de semana, para celebrar a  5a. edição do “Confronto  de Vinhos da Cordilheira”: o esperado encontro organizado pelo crítico argentino Enrique Chrabolowsky, que procura degustar às cegas, numa atmosfera amigável, 60 degustadores de 24 grandes vinhos de ambos os países.

Como de costume, é minha a responsabilidade de organizar a seleção do painel de provadores e a seleção de vinhos chilenos que nos representam. Não é uma tarefa  fácil. Por um lado, a data (última semana de outubro de 2010) é sempre cheia de compromissos para todos.

Foie gras royal e emulsão de avelãs e trufas. Não me lembro de comer tantas trufas….um prato que é um verdadeiro luxo, complemento perfeito para o vinho, que neste caso era Sauvignon Blanc, que  esteve a sua altura refrescando as intensas notas das trufas para casar-se perfeitamente com a cremosidade da emulsão.

Foi com esse desejo e uma grande responsabilidade nas costas, que este ano  se abriu pela primeira vez uma pré-seleção. A proposta era escolher os melhores vinhos chilenos. O apelo foi grande, mais de 40 grandes vinhos foram provados e selecionados por um grupo de enólogos dedicados que se encontraram com alguma assiduidade. Desta vez foi colocada uma surpresa, um grande argentino infiltrado que nos deixou preocupados, tanto que foi escolhido por unanimidade como o favorito de todos. Esse fator inesperado, obrigou-nos pois, a fazermos uma nova chamada e construir uma nova proposta: só seriam escolhidos vinhos de grande caráter, mas com sabor mais “universal”. Isto é, com as características típicas de suas uvas, combinada com uma estrutura sólida e de perfeita concentração sem excesso de madeira,  com taninos muito suaves, pronto para beber agora. Vinhos frescos,  muito frescos.

Então, ficamos com dois Sauvignon Blanc de Casablanca, dois Syrah de Limarí, dois Cabernet Sauvignon  (um do Aconcágua e outro do Maule, portanto, não há  vida somente no Maipo – Chile), dois Carignan do Maule (um deles na competição pela terceira vez, e novamente não foi o vencedor), dois blends tintos e dois Malbec. A diversidade de variedades e de vales,  originou a proposta definitiva, algo que a versão argentina dos vinhos da Cordilheira não pode oferecer.

A PROVA

Em Mendoza estava tudo pronto na noite de sexta-feira, 29 de outubro, para o recebimento de nossa comitiva, até que o outro lado da cordilheira começou a receber uma má notícia: o Paso Libertadores foi fechado devido ao mau tempo. Até o vento Zonda desacelerar em meio a uma atmosfera de luto nacional ainda levaria alguns dias. A situação exigiu uma mudança de planos. E assim, os 10  chilenos que ficaram parados, todos membros do MOVI (Movimento dos Vinhateiros Independentes), com uma camiseta impecavelmente vestida, passaram a noite em Portillo (Chile). Somente às 11:30 da manhã seguinte chegaram ao “Club Tapiz”, com a metade dos vinhos faltantes para começar a prova.

Oitenta pessoas conseguiram participar do painel, número recorde na história deste encontro. Em sua grande maioria enólogos e bodegueiros argentinos, de um lado e do outro os enólogos chilenos (inclusive Brett Jackson da Valdivieso,  Marcela Garate da Odfjell, Felipe Ramirez da Nativa,  Sven Bruchfeld da Polkura e Felipe Garcia da Bravado Wines), jornalistas, somados a três belas mulheres: duas sommeliéres, uma da Argentina e  outra da Venezuela, além de uma jornalista polaca. Todos presentes, exigiu-se paciência para ligação do sistema on-line criado pelo filho de Chrabolowsky, que permite que você veja o resultado da votação imediatamente numa tela grande.

Os resultados estão na lista abaixo, de baixo para cima (vinhos com menos de 90 pontos não são conhecidos). Assim, pelo terceiro ano consecutivo, a Argentina ganhou a nota máxima, graças a um Malbec, desta vez o Black Tears 2006 da Bodega Tapiz, e não por acaso, porque agora acho que este era o vinho argentino  infiltrado na pré-seleção de chilenos.  O que tem de mais esse vinho do Vale de Uco ($ 180 pesos/Argentinos), de vinhas de apenas 15 anos, que ganhou de outros grandes Malbecs,  incluindo o nosso Viu 1 Malbec (vencedor das duas primeiras versões 2000 e 2001)? Primeiro, um nariz sedutor cheio de frutos pretos e notas de damasco e  segundo uma boca sedosa, com grande corpo, peso e estrutura, mas acima de tudo um vinho sedoso, sem arestas, sem contradições. Um sabor que chamo de “universal”.

Se não ganhamos com os tintos, é verdade, mas no final tomamos à frente com os brancos, com duas altas pontuações. É verdade, houve um Chardonnay argentino que se destacou, mas para mim não havia muito lá, a não ser muita, muita madeira e essa foi a  razão pela qual  decidi não levar  nossos grandes Chardonnays de Malleco ou Limarí. A aposta foi levar nossos excelentes Sauvignons, muito fáceis de entender.  Mostraram-se bons o Casas del Bosque Gran Reserva, que mereceu um ponto a mais – disse Chrabolowsky, “mas seu enólogo Grant Phelps, disse  na pré-seleção que sabe como pontuam os brancos argentinos, então nunca vão ganhar essa competição!

O que aconteceu com o nosso Carignan que teve as notas mais baixas desta vez ? O mesmo aconteceu nos anos anteriores, são vinhos que se mostram contraditórios nas degustações  e não apenas para os argentinos, eis que têm uma elevada acidez, taninos muito marcad0s e bocas menos redondas e gulosas. Distanciam-se do gosto “universal”, essa que é, naturalmente,  a sua grande graça. “Vamos deixar de levar-los? Não sei ainda, mas não gostaria.

Agora a grande questão é por que  não levei nenhum Carménère, justamente eu que sou sua grande defensora. Porque a impressão que tive que ainda não estão grandes o suficiente para enfrentar os grandes Malbecs da Argentina, e se os levasse, teriam  que ser os melhores. Espero que no próximo ano (2011) assim seja.

 

Se continuarmos a revisão da lista, o grande vencedor  chileno foi o  Tabalí Payen Syrah 2007, Vale Limarí (único chileno com 92 pontos), um vinho que surpreendeu o painel pela complexidade do seu nariz de Syrah de clima frio, com notas de frutos pretos, couro novo, alcatrão, violetas e uma boca longa, profunda, gulosa e muito sedutora. Temos mais Syrahs grandes como este. E ainda que me perguntem sempre digo que com esta cepa temos mais potencial para ganhar altas pontuações com o “gosto universal”, pontuações que a Argentina está trabalhando afincadamente ano após ano.

Não posso terminar este artigo, sem  referência ao prazer que foi degustar  a seleção de vinhos tintos deste ano. Somente por um par de exceções, a madeira nunca esteve em primeiro plano no nariz ou na boca, taninos e álcool se sentiram amáveis e em bom  equilíbrio, graças também a uma excelente temperatura de serviço no grande salão do Club Tapiz. A noite nos Andes também ajudou a muitos. Creio finalmente que estamos entendendo, que em ambos os lados da cordilheira menos  é mais.

Também não houve, ao contrário das versões anteriores,  vinhos com tantas  notas de licorosas, oxidadas, tipo Porto, nem carregados de notas de couro velho, brett, e que apresentou um argentino, em quantidade precisa, mas que também atraiu críticas por sua pontuação elevada (embora não a maior). Então sendo assim  nós também podemos nos atrever a levar algum chileno algo selvagem na próxima vez…

Finalmente, se parecem ser baixas as pontuações, 93/100 pts. era média máxima, mas temos que  pensar que são médias e que para chegar  a 93/100 pts., 92/100 pts., com um júri de oitenta pessoas com gostos tão diferentes é coisa que somente os grandes vinhos alcançam.

Vinhos com 90 pontos:

(Argentina) Vistalba Tomero Syrah 2008
(Argentina) Lagarde Henry Nº1  2007
(Argentina) Toso Magdalena Blend 2006
(Argentina) Terrazas Afincado Malbec 2007
(Argentina) Altavista Alizarine Single Vineyard Malbec 2008
(Argentina) Catena Zapata Nicasia Malbec 2007

(Chile) Viu Manent Viu1 Malbec 2007, Colchagua
(Chile) Ribera del Lago Laberinto Cabernet Sauvignon 2007, Maule (Chile) (Chile) Errázuriz Don Maximiano Cabernet Sauvignon 2007, Aconcagua

Vinhos com 91 pontos:

(Chile) Casas del Bosque Sauvignon Blanc 2010, Casablanca
(Chile) Los Vascos Sauvignon blanc 2010, Casablanca
(Chile) Polkura Malbec 2008, Colchagua
(Chile) Montes Montes Alpha M 2007, Colchagua
(Argentina) Trapiche Finca Las Palmas Chardonnay 2007

Vinhos com 92 pontos:

(Argentina) Cobos Nico Corte Único 2008
(Argentina) Cuvelier Los Andes Gran Vin 2007
(Chile) Tabalí Syrah Payén 2007, Limarí, chileno de maior pontuação.

(Argentina) Tapiz Black Tears Malbec 2006

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