Daily Archives: 24/01/2012

Série “a produção do vinho”: maceração

O processo de contato do suco com as cascas das uvas, quando ocorre a dissolução de pigmentos e outras substâncias contidas nas cascas, chama-se maceração. Esta pode durar desde 2 ou 3 dias para vinhos muito leves até mais de 30 dias para obtenção de vinhos com muita cor e corpo. Os pigmentos naturais e componentes de aromas e sabores contidos nas cascas das uvas são extraídos pelo álcool derivado da fermentação e maceração. Isso pode acontecer em recipientes de madeira, inox ou cimento. Para os tintos, raramente é em madeira. Fonte: Adega Veja – volume 8

 

Série vinícolas chilenas: Viña Chadwick

Em 1945, Don Alfonso Chadwick Errázuriz adquiriu a propriedade de 300 hectares no Vale do Maipo, onde forma plantadas varietais tintas. Em 1967, a propriedade foi vendida, sendo mantidos 25 hectares para sediar a casa da família e um campo para prática de pólo, seu esporte predileto. Em 1992, a propriedade voltou a ser berço de vinhos, quando foram plantados vinhedos de variedades selecionadas para a produção de um ícone chileno: 11 hectares de Cabernet Sauvignon e um hectare de Merlot. Estes vinhedos recebem “atendimento personalizado”. De acordo com seu desenvolvimento, são divididos em blocos que passam a ser monitorados individualmente, a fim de garantir a colheita no momento ideal de cada bloco e das vinhas em cada bloco.  O vinho passa por estágio em carvalho francês e cada bloco é envelhecido separado para maximizar as opções de corte. Importador: Expand.

Groot Constancia Sauvignon Blanc 2010

Sobre o Produtor

A história de Groot Constantia é o melhor exemplo sobrevivente da arquitetura holandesa do Cabo e um dos mais importantes monumentos históricos e atrações turísticas da África do Sul e remonta a 1685. Costuma dizer-se que a Mãe Natureza sorriu quando ela preparou o Vale de Constantia para os vinicultores. Ela deu-lhe a influência do sol, vento, oceanos e solos férteis, e, em seguida, desafiou-os para plantar vinhas e fazer excelentes vinhos. E tem sido correspondida. Por mais de três séculos, a região produz um dos mais famosos vinhos doce do mundo e continuando a tradição criando uma gama de vinhos de qualidade. O nome de Constantia está irrevogavelmente ligado aos vinhos mais famosos feitos na África do Sul e cobiçados em todo mundo. Os volumes eram tão limitados que toda produção era consumida pela aristocracia do mundo. Os membros da Casa Real Britânica, Napoleão Bonaparte, Louis Philippe da França, Frederico II (O Grande), entre outros. A propriedade pertence à Constantia Groot Trust, uma associação que se comprometeu a manter e restaurar a região mais tradicional e melhor produtora de vinho da África do Sul, um verdadeiro monumento nacional.
É uma vinícola em pleno funcionamento, uma das mais visitadas por turistas e produz com todo carinho, uma vasta gama de vinhos de qualidade além de oferecer outras atrações como restaurantes e museus. Uma experiência inesquecível!

Degustação

Groot Constancia Sauvignon Blanc 2010 – álcool: 14% – região: Western Cape – preço: R$ 98 – importador: Ravin Amarelo palha quase translúcido com reflexos ligeiramente esverdeados. Aromas frescos e frutados com destaque para frutas tropicais, maracujá, lima sobre um fundo herbáceo. No paladar um vinho de acidez delicada, com bom frescor proporcionado por sua acidez. A tipicidade da casta é um de seus destaques. Também chama atenção sua mineralidade quase salina. Intenso, termina persistente e elegante. Avaliação: 89/100 pts.

O vinho é um produto natural ?

Há um embate frequente, ainda que às vezes velado, de entrelinhas, entre métodos de produção de vinhos de um modo “natural” e outro modo “tecnológico”. Isso suscita várias perguntas, tais como: O que pode mover e justificar cada escolha? Quais os limites éticos (se é que existem) da “manipulação” laboratorial sobre um produto natural? O vinho tem que ter bom paladar? O cliente sempre tem razão?

A LINHA DA VIDA DE UM VINHO

O vinho é um estágio intermediário do processo natural que ocorre quando à partir do rompimento de um bago, o suco que se extravasa sofre uma fermentação por leveduras que estão presentes na película das uvas. O destino químico final e natural de um vinho é sofrer enfim uma oxidação e uma ulterior degradação por bactérias acéticas que irão transformá-lo em vinagre. Portanto para se apreciar um vinho é preciso obrigatoriamente uma série de intervenções de contenção química que impeçam que ele tome o curso “natural”.

Em palavras técnicas, é preciso estabilizá-lo!

PERGUNTAS INICIAIS

Opções: quanto de manipulação é aceitável? Adiciona-se qualquer coisa? Não se adiciona nada? Adiciona-se o mínimo possível?

Já comentei aqui mesmo no blog, em minha matéria sobre o SO2, que certos procedimentos são fundamentais ainda que em doses mínimas como o próprio sulfito. Sem este, o risco de oxidação do mosto é enorme.

ALGUMAS INTERVENÇÕES COMUNS (ALÉM DO SULFITO)

  • · Adição de álcool:chaptalização
  • · Remoção de álcool: osmose inversa (ou reversa)
  • · Adição de acidez: ácidos tartárico e/ou málico
  • · Subtração de acidez: CaCO3, KCO3
  • · Intervenções: Micro-oxigenação, Osmose inversa (reversa)

AS POSSÍVEIS JUSTIFICATIVAS

Os defensores do “terroir” podem até se esquivarem de justificativas porque precisamente deixam “a terra se expressar” por meio dos vinhos, sejam lá o gosto que terão, gostem ou não dele, afinal é um produto natural! Será que seria plausível manipular o sabor do jiló para que todos gostem dele? (certamente já manipulam a aparência dos vegetais).

Obviamente vamos recair sobre a questão da ética capitalista (não se esqueçam: vinho é sociologia!). Há que se vender um produto e para tanto, será preciso garantir que tenham, no caso, boa palatabilidade. Daí a questão: O vinho tem de ter bom paladar? Resposta: sim, porque senão não vende. Mas “bom paladar” significa dizer que o vinho tem de agradar a maioria!

Um trabalho de pesquisa interessante, de 1982 da Universidade de Bristol, mostrava que:

  • · Quando se comparavam os itens “cor, aroma e sabor” dos vinhos,  entre consumidores de diversas faixas etárias, o sabor sempre prevalecia, sobretudo entre os mais jovens.
  • · Quando se comparava os mesmos itens entre bebedores frequentes e infrequentes, também prevalecia o sabor sobre as impressões aromáticas ou aparência da bebida, em vinhos de custos diferentes.

Ou seja, vinho tem que ser bom na boca! Pouco interessa se o degustador é ou não um expert! Claro que quanto mais treinado o degustador, mais a expressão aromática ganhava interesse, mas nunca chegando a suplantar as sensações obtidas no palato.

Assim, “o cliente sempre tem razão”!

Para isso não se medem esforços para corrigir as “falhas” da natureza que possam ter diluido as uvas com chuvas, aumentado a acidez por obrigar uma colheita precoce etc etc…

CONCLUSÃO

Como de costume, não vou tomar partido algum, mas é fundamental que as pessoas entendam todo o processo para que possam ao menos ter a real chance de fazer uma escolha absolutamente consciente de querer ou não um produto tão natural quanto possível ou um produto “trabalhado” para agradar a maioria.

Em breve pretendo tratar de explicar um pouco de cada tipo de intervenção citada e provavelmente algumas mais. Um brinde a todos!

Texto de André Logaldi.