Vinho e Saúde: o Paradoxo Francês

Estudo realizado com 34 mil adultos franceses que constatou, no final dos anos 1980 (publicado no British Medical Journal em 1991 por Renaud e De Lorgeril), que o povo francês apresentava uma taxa de mortalidade por cuasas coronarianas três a quatro vezes menor  que a taxa entre norte-americanos e ingleses – e era também, em média, bem menos afetado pela obesidade. O caso ribombou para valer nos EUA em 17 de novembro de 1991, quando o programa da rede CBS de televisão entrevistou o cientista Serge Renaud e foi visto por cerca de 50 milhões de norte-americanos.

A questão paradoxal é: por que os franceses, com níveis de consumo de bebidas alcoólicas – e de tabagismo – superior ao dos anglófonos, além de notórios apreciadores de comidas com manteiga, foie gras e carnes gordas, morrem até quatro vezes menos do coração?

Serge Renaud, em companhia de Curtis Ellison, que dava continuidade ao trabalho na América, apresentou sua hipótese: o vinho, em quantidades moderas e regulares, tomado ao longo de refeições longas e relaxadas, reduziria o risco coronariano.

Segundo a Doutora Dominique Lanzmann-Petithory, médica especializada em nutrição e gerontologia, professora de saúde pública e chefe do serviço de nutrição do Hospital Émile-Roux, em Paris, além de participante ativa do grupo de Renaud no European Institute for Wine and Health, quase 20 anos depois de ventilado o primeiro estudo, os franceses ainda confirmaram suas hipóteses: apresentam a menor mortalidade devida a causas cardiovasculares do mundo ocidental, apesar do tabagismo ainda elevado em termos gerais e da inapetência francesa (da média população, naturalmente) para as atividades físicas.

A França perde em índices de saúde coronariana, entre os países industrializados, apenas para o Japão, exatamente o que acontecia há cerca de 20 anos, quando da divulgação inicial do “Paradoxo Francês”. Segundo Petithory, a França é o 15° país em consumo de álcool no mundo, segundo a OMS, mas ainda figura entre os dois primeiros em consumo de vinho.

 

Há outros fatores, além dos benefícios da ingestão moderada de vinho na dieta francesa, a estimular a longevidade cardiovascular. Refeições longas, de em média uma hora, como parte de um ritual de sociabilidade à mesa, com pratos recém-cozidos de hortaliças, legumes, carboidratos integrais e azeite de oliva, também são fatores de boa nutrição, em vez de comida industrializada, sanduíches e frituras diante do computador, p. ex., acompanhados de um refrigerante pleno de categorias vazias, corantes, acidulantes, conservantes e gás carbônico.

 

O principal valor do estudo que veio a se celebrizar como “O Paradoxo Francês” foi mesmo avançar no debate da importância da boa alimentação e do imenso benefício de dedicar atenção e tempo às refeições, mesmo as diárias e rotineiras, muito mais significativas do ponto de vista nutricional do que as especiais. O vinho é parte importante de uma refeição equilibrada, mas não é a única mola dessa engrenagem, além de só trazer beenfícios se ingeridosob determinadas condições – ao contrário, se consumido acima de certas doses, pode ser fator causador e agravante de graves doenças.

 

De acordo com o Dr. Curtis Ellison, chefe do Depto. de Medicina Preventiva e Epidemiologia e Professor na Escola de Medicina na Boston University, o estilo de vida dos franceses também é importante na equação. Ellison enumera algumas características desse sistema alimentar, incluindo o consumo moderado e regular de vinho, especialmente tinto, às refeições. Os franceses comem mais frutas e vegetais, dedicam mais tempo e atenção à comida e à mesa, abrindo mão de petiscos industriais; comem menos carne vermelha, menos leite integral, e mais queijo e azeite de oliva, em vez de toucinho ou gordura animal.

O europeu considera o vinho como alimento, parte da refeição, e não como bebida alcoólica.

 

 Texto de Eduardo Viotti. Coleção “Folha – o mundo do vinho” A Harmonização do Vinho.

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