verao - praia e coqueiro

Qual o tipo de vinho mais apreciado pela média do consumidor brasileiro? Após três décadas de crescimento desse mercado, tanto na produção interna, como na expansão do setor importador – estima-se que existam mais de 400 empresas importando vinhos no País –  expansão também registrada na chamada ‘cultura’ do vinho, que envolveu desde o espaço ganho na mídia, os cursos para amadores e profissionais, sem falar nas degustações e seus consequentes rituais educativos, ou seja, após toda essa odisséia para preparar e refinar o gosto nacional para o assunto, o brasileiro continua amando acima de tudo os vinhos tintos – e  tintos densos, bem carnudos, ainda de preferência fortemente amadeirados.

            Convenhamos que um vinho desses, debaixo das temperaturas médias de verão, em país com fama de tropical, não assenta nada bem. Os vinhos brancos, que exigem serem servidos bem resfriados, entre 10ºc e 8ºc, seriam a alternativa lógica. Além de refrescante, outra característica que justificaria uma maior aceitação: o vinho branco é ótimo também como aperitivo, ou bebida que funciona como coquetel, pois, ao contrário dos tintos, não é imprescindível o acompanhamento da mesa (apesar do seu conhecido brilhantismo ao lado dos pescados).

          Mas como a lógica nem sempre prepondera por aqui, outros fatores merecem análise quanto a esse desdém e quase abstinência pelos brancos. Uma das justificativas costuma ser uma má experiência ao paladar, com algum vinho insignificante, uma acidez exagerada ou doçura artificial, podem gerar o tal preconceito contra os brancos  – vinho menor, sem grandes atributos, costumam justificar.

Uvas brancas

            Os brancos mais célebres do mundo são produzidos na Bourgogne, pela famosa cepa Chardonnay, especialmente os das denominações Chablis – e quem provou um Chablis (especialmente um Grand Cru ou Premier Cru), dificilmente conseguiria repetir “eu não gosto de vinho branco”… A fineza de aromas e amplitude de paladar, somada a uma longevidade que pode chegar a dezenas de anos, inalterado, (não esquecer que vinho branco comum não sabe envelhecer), fazem de um grande Chablis uma experiência única. Mesmo que o chamado vinho do Novo Mundo venha realizando prodígios com Chardonnay e outras cepas brancas, um Chablis mantém-se inimitável, pelo solo argilo-calcário, rico em fósseis, e, possivelmente por mais toda a sabedoria francesa no assunto.

            Detalhe ainda mais irônico para o Brasil, onde mais de dois terços de todo o consumo em vinhos sempre se refere aos tintos, é que a vinicultura brasileira, por mais que se esforce em fazer tintos que possam enfrentar a concorrência –  especialmente entre os sul-americanos – ele, o tinto nacional, a custa de muita dificuldade, consegue ser medianamente apreciável (exceções admiráveis existem, é incontestável, mas literalmente, a que preço?). Em contrapartida, no terreno das cepas brancas, o Brasil demonstra clara vocação para a vinicultura do gênero, tendo visto o sucesso e reconhecimento unânime em relação aos espumantes brasileiros e sobre alguns brancos, bem agradáveis, frutados, donos de frescor e leveza irrecusáveis para o clima quente.

            Para mim, amante confessa de incontáveis espécies de vinhos extraídos das castas brancas, ele, o ‘branquinho-básico’, consegue ser na maioria das ocasiões (especialmente como mis-en-bouche), mais democrático, casual, sempre mais leve e divertido, e geralmente não requer grandes compromissos com uma cozinha de peso. Simples entradinhas, ou finger-food , ficam perfeitas na companhia daquela  tacinha de vinho bem geladinho, as vezes com aquele espírito meio atrevido, ‘oferecido’, pleno de luminosidade, e equivocadamente dito branco, porque cheio de nuances, do dourado ao amarelo cítrico. É ou não é a cara do verão brasileiro?!

vinhos-brancos- tacas

•  Uma lista democrática com o melhor do “branquinho básico”

• A tradicional marca do Sul, Monte Paschoal (Vinícola Basso Vinhos e Espumantes), elabora o Virtus Moscato 2012, vinho de apenas 12% de álcool, produzido em Farroupilha, RS, cujo preço máximo é da ordem de R$ 18,00 – apresentação moderna e atraente, fácil de beber, apropriado para o peixe de sexta-feira e que também agrada uma das partes mais sensíveis do corpo: o bolso!

.  Em produção bem limitada, um vinho orgânico, da antiga vinícola Velho Museu Juan Carrau, um branco feito da uva Gewürztraminer (de adaptação não muito feliz na América), mas que no caso merece uma prova: Velho Museu Gewürztraminer, encontrável em algumas casas especializadas, como a Toque de Vinho (tel. 011 3083 2669).

mesa no jardim -verao

 • Surpresa maior foi a chegada dos inéditos vinhateiros catarinenses, com os chamados “Vinhos de Altitude de Santa Catarina” – produzidos há mais de 1000 m., nas frias serras catarinenses, como São Joaquim, originando um vinho de terroir exclusivo e alta tecnologia. Destaque para o produtor Sanjo, que produz o Núbio Sauvignon Blanc 2012 de aromas expressivos e frescor sem igual.

• Os catarinenses também sabem fazer espumantes. O Pisani Brut (R$ 36) já recebeu vários elogios daqueles que o provaram. Um espumante delicioso, elaborado na Serra do Marari, Distrito de Tangará,  Oeste Catarinense,  a 1.200 metros de altitude, que pode ser adquirido através do tel. 041 3072 6907.

• Já a Salton, vinícola estabelecida no Rio Grande do Sul desde 1910, na última década  passou a investir alto, decidida a provar que o vinho brasileiro também pode fazer bonito. Famosa especialmente nos espumantes, ela enveredou na produção de vinhos Super Premium e os resultados são alentadores: experimente o elegante varietal  Virtude Chardonnay 2011 (preço médio R$ 50), vinho que já foi apontado amiúde pela crítica especializada como o melhor Chardonnay brasileiro.

Vinho branco

Uma rota de transparência iluminada

• Existem muitos vinhos luminosos que não poderiam faltar em uma lista que propõe sinalizar e comentar algumas variedades dos soberbos vinhos brancos.

• Os da Alsácia, França, costumam ser magníficos, como o respeitado Gustave Lorentz que produz vinhos pelos métodos tradicionais. Os equipamentos tradicionais só são utilizados quando respeitam a qualidade enológica dos vinhos. A Maison Lorentz tem mais de 33 hectares de vinhas, localizadas no Sul-Sudeste e plantadas sobre solo argilo-calcário, que se beneficiam de ótima insolação. Seu Gustave Lorentz AOC Alsace Riesling Cuvée Particuliere 2005, 12,5% álcool, R$ 118 (Vinhos do Mundo, em SP  tel. 011 99491 1077), é um vinho cujo frescor se destaca ao lado das nota de lima e limão siciliano.

Título

•  Mais um branco, desta vez um top Bordalês, de vinhedos localizados em “entre-deux-mers” do célebre Château Reignac, um blend de Sauvignon Blanc e Sémillon, o Reignac  Bordeaux Blanc Superieur 2009, 14% de álcool, elaborado com as uvas Sauvignon Blanc (55%) e Sémillon (45%), vinho sofisticado que pode ser adquirido numa das janelas da coluna direita do Blog do Jeriel com um bom desconto!

•  Australianos têm se confirmado como um talento seguro nesse terreno. A importadora KMM é especializada no país e detém rótulos notáveis, alguns acessíveis, como o Down Under-Chardonnay (R$ 39,90), com sabores marcado pelas frutas cítricas e melão maduro, amadurecido 6 meses em carvalho francês; ou o Richland Viognier, do produtor Westend Estate (R$ 59,90 – KMM), é um exemplo da flexibilidade dos vinhateiros daquele país, que com a caprichosa uva viognier consegue um frutado, encorpado e suculento resultado destes.

mesa no jardim

• O vizinho território da Nova Zelândia também é referência de destaque na moderna vinicultura, como a pioneira vinícola de Marlborough, Saint Clair com este Vicar’s Choice Sauvignon Blanc 2010 – / que ganhou 89 pontos da Wine Spectator (R$ 79 – Grand Cru); sabores com notas de groselha, ervas e goiaba, de prolongado final.

•  Vinícolas do Chile, que permanecem detentoras da maior popularidade no mercado brasileiro, produzem alguns rótulos apreciáveis – e de preços moderados. O Corinto Chardonnay Vale Central é um deles. O exemplar 2012, da importadora Vip Wine, custa apenas R$ 25 e vale o preço (www.emporiumsaopaulo.com.br). Aromas de frutas brancas (pêra, maçã verde e melão). No paladar, macio, fresco que ostenta boa fruta de forma correta (leve toque de lima e de abacaxi) sem sofisticação e sem passagem por madeira. A tipicidade é boa, o preço melhor ainda e o final sem amargor ou qualquer rusticidade.

• Outra marca chilena bem conhecida do consumidor, Santa Helena, apresenta a versão Selección del Directório Chardonnay (Interfood/ R$ 50,90), vinho que tem aromas típicos da casta, de sabor complexo e refrescante, com teor alcoólico muito equilibrado para seus 13º graus.

• Os argentinos vieram para ficar, como indicam os vinicultores e seus enólogos que acumulam prêmios e pontos na crítica internacional. O célebre Catena que produz vinhos em várias linhagens é um exemplo: Alamos Chardonnay 2010 (US$ 18,90) é opção acertada, ou o  Catena Alta Chardonnay 2008 (Mistral – US$ 55,90), de vinhedos privilegiados, saltando na complexidade de aromas, sabores – e numerário também…..ou o Monteagrelo Chardonnay 2008, (álcool: 13,5%), de Walter Bressia, que é um produtor festejado na Argentina por conta das altíssimas pontuações alcançadas por seus caldos. Walter produz vinhos brancos para bebedores de tintos. No Empório Mercantil, tel. (11) 3034-4878 ou no Empório Frei Caneca, sito à  Rua Frei Caneca, 569 – Shopping Frei Caneca.

• Vinhateira de prestígio, Suzana Balbo, no rótulo Crios Torrontés 2011, feito da espécie de uva exclusiva da Argentina, a intensamente perfumada Torrontés. Na Cantu ou nas principais lojas e supermercados de São Paulo. • Serrera Torrontés 2010 – mais um exemplo da notoriedade argentina: de vinhas antigas se extrai um vinho incrivelmente fresco, aromas minerais, amendoados e jasmim, sem estágio em barrica (Hannover SP – tel. 011 2638 0881). Ótimo acompanhamento para as famosas “empanadas” argentinas.

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3 thoughts on “Coluna “Ao Bel Prazer” de Jezebel Salem – Como deixar o verão passar em branco”

  1. Bel, seu talento esta exposto neste artigo muito bem escrito! Delicia e de ler!
    Vou procurar estes vinhos aqui em Miami. Deu vontade de experimentar todos!
    Bjs

    1. Nickita querida,
      obrigada por prestigiar esta humilde (nem tanto…) escriba. O artigo fica em homenagem a inesquecível Waly, que tinha amor exclusivo e fidelíssimo aos vinhos brancos.
      amour, soleil and white wines in the night!…

  2. Jezz querida;
    Você sabe que sempre fui uma fã ardorosa do seu texto. Continuo sendo, cada vez mais.
    Beijos,
    Voll

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