Por Míriam Aguiar

Diante da complexidade de entendimento das classificações dos vinhos de Bordeaux, mas também de sua importância e curiosidade generalizada, resolvi fazer este post. Como é um texto mais técnico, com muita informação, dividiremos a publicação das classificações em duas etapas. Na França e em Bordeaux, existem sistemas que funcionam paralelamente, específicos de algumas regiões, mas também demarcações que buscam sinalizar a qualidade dos produtos, com metodologias distintas entre si. Para começar, temos que voltar um pouco na história.

1 - route de grand crus

Primeiras décadas do século XIX, pós-era do clarete, a produção de Bordeaux já estava madura o suficiente para se afirmar como um dos vinhos de maior qualidade do mundo. Sobreviveu aos cortes do Bloqueio Continental, que restringiu as relações comerciais entre a França e a Inglaterra, em função da expansão imperialista de Napoleão Bonaparte. Os próprios franceses resistiram ao embargo imposto por Napoleão e, em 1815, com o final das guerras, o clima era de otimismo e prosperidade. A França detinha 40% da produção mundial de vinhos, dividida em dois perfis: os vinhos premium, encabeçados por Borgonha e Bordeaux, destinados aos mercados de luxo e ao exterior e os vinhos ordinários, produzidos em grande quantidade para suprir os mercados locais. O consumo aumentava seguindo o ritmo da urbanização e industrialização.

A expansão napoleônica e a tentativa de embargo a Inglaterra
A expansão napoleônica e a tentativa de embargo a Inglaterra

Começam a surgir instâncias e instrumentos para sinalizar o mercado dessa nova sociedade urbana de consumo, bem como a preocupação com as distinções entre os produtos, num clima mais concorrencial. Por outro lado, a figura do negociante, até hoje tão fundamental no mercado francês, se agigantava, especialmente após a falência do Banco de Bordeaux, fonte de empréstimos para os produtores. Obter um contrato com um negociante era importante, mas era necessário definir valores, sinalizar para os negociantes e público as qualidades dos vinhos. Aí entra a figura do «courtier », uma espécie de corretor especializado, que atua entre o produtor e o negociante, degustando, acompanhando a qualidade dos vinhos e orientando os negócios. Eles irão estabelecer, aos poucos, uma hierarquização do mercado, representativa de um consenso confidencial do setor.

Impression

Esse consenso vai sendo transmitido de uma geração a outra e, a partir de 1816, ganha sua primeira classificação, chamada Topographie de Jullien, que registra a classificação do corretor Lawton, constando a distinção Alto e Baixo Medoc e 4 melhores vinhos (Premiers Crus). Em 1824, o negociante alemão Wilhelm Franck vai aprimorar a lista, com 408 propriedades de 41 comunas do Médoc, indicando, dentre elas, 4 Premiers Crus, 2 Deuxièmes Crus, 8 Troisièmes Crus e 18 Quatrièmes Crus. Em 1846, o livreiro inglês Charles Cocks publica  o que seria a última revisão da classificação de Franck, uma obra intitulada Bordeaux, its wines and the claret country (Bordeaux, seus vinhos e a terra do clarete).

4 - Livro Bordeaux

A Classificação oficial que a sucedeu pouco se diferenciou desse registro. No auge das celebrações voltadas  para a apresentação de produtos nas grandes cidades europeias, os franceses viram na Grande Exposição de Paris de 1855, uma oportunidade para apresentar os melhores vinhos do país internacionalmente. A classificação de 1855 foi, então, solicitada por Napoleão III ao Syndicat des Courtiers de Commerce e apresentada publicamente nesta exposição.

Bordeaux Glass 2000
Bordeaux Glass 2000

Um total de 61 vinhos tintos, divididos em cinco categorias : 4 Premiers Grands Crus Classés (Château Lafite Rotschild, Château Margaux, Château Latour e Château Haut Brion), 15 2èmes Grands Crus Classés, 14 3èmes Grands Crus Classés, 10 4èmes Grands Crus Classés e 18 5èmes Grands Crus Classés. Dentre eles, 60 do Médoc e apenas um de Graves, o 1er Grand Cru Classé Château Haut Brion. Na categoria brancos, Sauternes & Barsac foram as regiões agraciadas, com 26 vinhos classificados como 1er e 2ème Grands Crus Classés e apenas o Château d’Yquem com o status de Premier Cru Supérieur.

 

Apesar das críticas, em função, especialmente, de se pautar por preços e de não incluir outros vinhos que a mereciam, a classificação se mantém até hoje, tendo mudado apenas uma vez, pela entrada do Château Mouton Rothschild como Premier Grand Cru Classé, em 1973. A Classificação de 1855, juntamente com outro feito o uso da denominação Château foram fenômenos que vieram consolidar o prestígio internacional de Bordeaux, até hoje, inigualável. No período da Classificação dos Crus, o nome « Château » não era associado a produção de vinhos, mesmo que algumas vinícolas estivessem de fato sediadas em castelos, o que não era a regra.

Château Margaux já era identificado como Château na classificação de 1855
Château Margaux já era identificado como Château na classificação de 1855

O conceito de Château como propriedade vinícola da região foi um empreendimento do marketing bordalês. Assim como “Domaine” ou “Maison” na França, Château dá nome à propriedade vinícola, só que este trouxe consigo a conotação aristocrática, de tradição, grandiosidade, legitimidade, implícita no conceito de Château. Dessa forma, esses valores simbólicos foram de algum modo associados às propriedades vinícolas de Bordeaux, agregando valor ao produto, assim como as grandes marcas fazem!

7 - Chateau PC

Desse modo, associando-se à primeira classificação oficial dos Grands Crus, com a devida pompa, a qualidade se hierarquiza e os Premier Crus se estabelecem como primeiros, não apenas da França, mas do mundo, fundando o imperialismo de Bordeaux. Obviamente que nem só de marketing se faz imagem; há que existir um consenso social que eleja esse lugar, como os registros que a antecederam, e uma ratificação dessa posição ao longo do tempo. E, de fato, o nível de qualidade alcançado pelos vinhos de Bordeaux continua sendo sustentado pela expertise, embora não faltem questionamentos quanto a imobilidade da Classificação de 1855 e a especulação econômica que sempre se fez em torno dela.

8 - 1855

Veja a relação dos vinhos classificados pelo link:

GRANDS CRUS CLASSES DE 1855 MÉDOC & SAUTERNES

Seguindo a história, o próximo marco importante para resguardar a reputação, distinguir as qualidades e projetar a imagem – não só dos vinhos de Bordeaux, mas de toda a França-, foi a criação das AOC’s (Appellations d’Origine Contrôlées) em 1935, pelo INAO (Institute National de Appellation d’Origine). O INAO é o instituto que orienta, regulamenta, fiscaliza e organiza os signos de qualidade de origem do país e o vinho foi o primeiro setor a fazê-lo.

9 - inao

Não me cabe relatar mais essa trajetória histórica, mas, apenas para contextualizar: um dos fenômenos que mais estimulou a criação dessa regulamentação, que também distingue categorias de qualidade, foi o extermínio de grande parte dos vinhedos pela praga Phylloxera Vastatrix. Várias regiões do mundo foram atingidas pelo pulgão exterminador, especialmente das três ultimas décadas do século XIX, aos primeiros anos do século XX. Para a França, que gozava de ótimo status, as consequências foram enormes, levando a uma drástica queda de produtividade, ao fortalecimento de mercados concorrenciais e a uma onda de falsificações. A regulamentação de 1935 representa então a reorganização do setor, recuperado da Filoxera, que foi seguida ainda pela primeira guerra mundial.

A filoxera acabou com as vinhas e com os vinhos!
A filoxera acabou com as vinhas e com os vinhos!

Procedeu-se à legitimação dos vinhos e à sistematização da qualidade nas categorias: AOC – vinho de áreas demarcadas com controle mais rigoroso de qualidade, Vin de Pays – vinho regional, que expressa o perfil da produção local e Vin de Table – vinho de qualquer região do pais, sem restrição de uvas, cortes, etc.

11 - carte-des-vins-de-bordeaux

 

Fico por aqui e, no próximo post, falarei sobre as classificações que ocorreram apos a de 1855, abrangendo outras regiões e outras gamas de produtos de Bordeaux.

Sobre Autora: Míriam Aguiar é pesquisadora do mercado de vinhos, com Doutorado na USP e Pós-doutorado na UMR Innovation Montpellier, autora de livro e artigos sobre o tema e editora do Blog "Os vinhos que a gente bebe"
Sobre Autora: Míriam Aguiar é pesquisadora do mercado de vinhos, com Doutorado na USP e Pós-doutorado na UMR Innovation Montpellier, autora de livro e artigos sobre o tema e editora do Blog “Os vinhos que a gente bebe” e colunista neste blog.
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10 thoughts on “Passageiros de Primeira Classe: Bordeaux e suas classificações – 1° round”

    1. Oi Luiz Otavio, obrigada pelas observações. Nao ha revisao que chegue quando a gente escreve muito. Logico que o livro e de 1846, pois eu vinha citando o contexto do seculo XIX e, no caso dos Grand Crus, basta somar o que descrevi em seguida, para chegar aos 61. Vou consertar e aproveitar para verificar com o Jeriel se o link que previ para a relação dos vinhos esta funcionando.

      Um abraço, Miriam

  1. Miriam, sua exposição sobre Bordeaux muito me servirá pois tenho dado esta aula regularmente e não tinha notado a importância didática de chegar a 1855 através das classificações anteriores.

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