Os soberbos vinhos do Pomerol

Pomerol

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Na noite de 28 de maio último…..é de bom alvitre que este escriba esclareça que entrou para o chamado “mundo do vinho” no ano de 1998. Desde então, já houve ocasiões – algumas ímpares – de degustarmos vinhos simplesmente extraordinários. Porém, na fria e chuvosa noite de outono de 28 de maio, sob o comando de Rosely Zambaldi, experiente enófila que assumiu a coordenação mensal da Confraria Vinho & Boa Cia., tivemos a “árdua tarefa” de degustar, às cegas, sete vinhos franceses do Pomerol. Prezado leitor, foi uma das degustações mais equilibradas que já tivemos a oportunidade de participar. E o principal: inédita, eis que em quinze anos nunca havíamos integrado um painel tão exclusivo. Foi emocionante. E aqui rendemos os nossos melhores cumprimentos aos confrades participantes eis que, todos sem exceção levaram vinhos cuja pontuação mínima não ficou abaixo dos 90/100 pts. E o principal: vinhos ímpares, finíssimos, soberbos, daí o título do post. São tintos verdadeiramente paradigmáticos. Sim, porque depois dessa degustação, quem participou saiu com uma visão segura do potencial da exuberante e onipresente Merlot, variedade francesa cultivada com sucesso nas principais regiões vinícolas do mundo, e que atinge na sua terra natal, a França (Bordeaux), sua melhor expressão.

 

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Sobre o Pomerol

Os melhores vinhos do Pomerol são sedutores. Ricos e suaves, têm textura aveludada e buquê suntuoso sobre uma estrutura firme que lhes permite envelhecer bem. Há quase 800 ha em produção, mas os vinhedos tem em média 6,5 ha, portanto a quantidade de vinho e limitada e os preços são altos em função da raridade. Estranhamente, eram pouco conhecidos fora da França e dos países baixos até os anos 1960. Diferentemente de St.-Émilion, no Pomerol não há calcário, mas o cascalho, a areia e a argila tornam essa zona propícia para a maturação precoce e a Merlot (80%) é cultivada com ótimos resultados. Está localizada num platô de inclinação suave a nordeste da cidade de Libourne, e os melhores vinhos provém do solo de argila e cascalho da parte central, onde ficam os melhores châteaux, entre eles Pétrus, Lafleur e Le Pin. Nos terraços mais baixos a oeste e sul, o solo é mais arenoso e os vinhos mais leves e menos potentes. A AOC Pomerol é o único distrito vinícola importante de Bordeaux a não ter um sistema oficial de classificação. Fonte: Vinhos do Mundo, Adega Veja, Vol. 2. Agora, sem mais delongas vamos à lista dos vinhos, que serão descritos e avaliados em seguida, na ordem decrescente:

4 - Livro Bordeaux

7° lugar – Chateau Hermitage Mazeyres AOC Pomerol 2006 – álcool: 13% – preço: R$ 227 (Boccati.com.br) – vermelho-rubi com halo granada em formação nas bordas. Muita fruta nos aromas – cereja, framboesa e amoras revezam-se entre si sobre um toque de côco. A crítica salienta que esta safra é tão profunda em termos de qualidade, só que menos alardeada, que este vinho é indicado para aqueles leitores que procuram valores acessíveis de tintos bordaleses. Tendo a Merlot como protagonista (a segunda variedade é a Cabernet Sauvignon), seus taninos são macios, sua acidez delicada e toda fruta apontada no nariz foi confirmada no paladar. Degustado em seu auge, assim deverá permanecer por mais 3-5 anos. Formidável, sem arestas. Avaliação: 90/100 pts.+

Pomerol

6° lugar – Château La Cabanne AOC Pomerol 2003 – álcool: 13,5% – vermelho-rubi intenso, profundo denotando concentração. Nos aromas uma boa concentração de frutas vermelhas e pretas (Merlot) misturadas com cedro sobre uma ponta de licor de cassis (Cabernet Franc, predominante no corte). Apontado pela crítica como um dos melhores La Cabanne já produzidos (avaliado com 90/100 da WS), no paladar revelou profusão de taninos expansivos, amaciados pelo tempo, com ótima concentração de fruta e um final empolgante. Reconhecidamente longevo, é um tinto que poderá ser bebido com alguma tranquilidade nos próximos dez anos. Avaliação: 90/100 pts.++

Pomerol

5° lugar – Château La Croix AOC Pomerol 2006 – álcool: 13% – Vermelho-rubi com reflexo granada brilhante. Aromas típicos dos tintos do Pomerol com muita fruta negra, sous-bois, caixa de charutos com ampla sustentação na taça. Na boca é inegável seu acento mineral, coadjuvado por toda fruta sinalizada no olfato. Os taninos são expansivos, acidez integrada e álcool na medida. Enfim, um vinho surpreendente, elegante, com refinamento de sobra. Avaliação: 90-91/100 pts.+

Na foto acima, uma das primeiras reuniões da Confraria Vinho & Boa Cia.

Na foto acima, uma das primeiras reuniões da Confraria Vinho & Boa Cia.

4° lugar – Château Beau-Séjour Bécot AOC Saint-Émilion Premier Grand Cru Classé “B” 2003 – álcool: 13% (fora de Pomerol) – Preço: R$ 347,00 – www.santaluzia.com.br (não menciona safra) – A partir de vinhedos que totalizam 41 hectares, situados nos planaltos calcários de St.-Émilion, o blend do Beau-Séjour-Bécot pode variar, mas normalmente tem cerca de 70% Merlot, 24% Cabernet Franc, e 6% de Cabernet Sauvignon. A produção pode ser tão baixa quanto 4.000 caixas (em uma pequena vindima como foi 2003), ou tão alta como 7.000 caixas (num ano abundante como 2004). Análise organoléptica: o 2003, exibiu cor violácea na transição para granada brilhante, com muita ameixa preta, nuances terrosas e toques animais a indicar um alto grau de amadurecimento na garrafa. Na boca é um tinto pleno, de taninos sedosos, texturizados, com muita vida pela frente, podendo ser guardado tranquilamente por mais de dez anos. Um ícone da margem direita que confirmou a fama de sofisticação e elegância. Avaliação: 91/100 pts. ++   

Wine Advocate #164
Apr 2006
Robert Parker 93 Drink: 2007 – 2022

3° lugar – Château du Couvent AOC Pomerol 2006 – importador: Decanter – preço: R$ 212,50 – vinhedo de 12 hectares, idade média das videiras 35 anos. “Second vin” do Château Clos René, proveniente das videiras mais jovens. Composição das variedades utilizadas na sua elaboração: 70% Merlot, 20% Cabernet Franc e 10% Malbec. Amadurecimento: 18 meses em barricas de carvalho de 225 litros, 25% novas. Características climáticas: clima temperado mais continental do que no Médoc, com grandes variações de temperatura durante o dia, com um pouco mais de chuva durante a primavera e substancialmente menos durante o verão e o inverno. Elaboração: Viticultura orgânica. Rendimentos de 40hl/ha. Desengaçe completo. Cuvaison (fermentação e maceração) longa, por aproximadamente três semanas. Amadurecimento em barricas bordalesas, 25% renovadas a cada ano. Análise organoléptica: vermelho-rubi profundo, brilhante, concentrado. Bouquet complexo e elegante, com geleia de cerejas, licor de cassis, nuances florais sobre madeira e algumas notas terrosas. Paladar rico e harmônico, com frutado denso, taninos muito macios e envolventes. Final limpo, sem arestas, com a confirmação da sensações olfativas iniciais. Avaliação: 91-92/100 pts.+

Placa de Pomerol, onde a Merlot reina absoluta

2° lugar – Hospitalet du Gazin AOC Pomerol 2007 – Second Vin du Château Gazin –  adquirido em NY por aproximadamente US$ 30 – Preço no Brasil – R$ 276,61 (mesma Safra – Importadora Mistral) – Os vinhedos do Château Gazin têm 90% de Merlot, 7%  de Cabernet Sauvignon e 3 % de Cabernet Franc. No final, o vinho tem potência e o delicioso frescor da menta, criando uma marca elegante e clássica do Pomerol, que o proprietário Nicolas de Baillencourt procura. O prédio do Château impressiona e apresenta uma vinícola equipada com pequenos tanques de concreto. Existe um segundo vinho excelente, o L’Hospitalet de Gazin. Fonte: O Grande Livro dos Vinhos Publifolha, edição 2012. Análise organoléptica: Intenso e profundo na cor, nos aromas é um perfeito Bordeaux, eis que apresentou enfáticas notas de couro, tabaco, sous-bois sobre frutas negras (ameixa e framboesa principalmente). Na boca um vinho de taninos aveludados e envolventes, ótima acidez e principalmente um sabor delicioso, de arrancar elogios do mais reticente dos críticos. A fruta se destaca, seguida por uma gostosa nota de menta que lhe aporta frescor. Ainda no paladar madeira e álcool integrados, tudo no lugar certo neste vinho que simplesmente acaricia o paladar de tão sutil e aveludado que é. Jovem, deve ganhar complexidade na garrafa. Persistente, tem retrogosto marcado pela fruta. Uma pena que no Brasil, além de ser difícil de ser encontrado, seu preço esteja longe de ser uma pechincha. Avaliação: 92/100 pts.+

Crítica Pontuação Quando beber
Gault & Millau 16/20 
Jancis Robinson 15.5/20  2011 to 2014

1°.- Château Gazin AOC Pomerol 1999  – (Preço US$ 230,50 – safra 2007 – Mistral) – A potencialmente soberba safra 1999 do Château Gazin impôs seu valor ao longo dos últimos anos. Na taça, o Gazin exibiu cor brilhante, de matiz vermelho-rubi com discreto halo de envelhecimento que não entrega seus 15 anos. Aromas inebriantes, sofisticados e típicos. Impressiona pela carga de frutas confitadas ladeadas por toques etéreos e animais. As notas de carvalho estão perfeitamente integradas. Como todo grande vinho seus aromas mudam a todo instante demonstrando muita complexidade. Notas de alcaçuz, ameixa, café torrado e amoras. No paladar, sua entrada revelou um tinto encorpado, forte, musculoso, de grandes dimensões, aliada a uma maciez ímpar, como se espera de um Pomerol. Revelou grande e generosa profundidade, além de taninos de textura aveludada, num fina moderadamente longo. Sem dúvida, uma das mais importantes expressões da Merlot em Bordeaux. Um vinho superlativo em todos sentidos! Avaliação: 93/100 pts.++

Wine Advocate #140
Apr 2002
Robert Parker 89 Drink: 2002 – 2014

Pomerol

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                                                               Jeriel, Paulo Guerra e Alexandre Furniel

 

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