Degustação Alentejo 2017 – A importância da Aragonez

No último dia 21 de setembro, a CVRA – Comissão Vitivinícola Regional Alentejana, organismo que certifica e promove os Vinhos do Alentejo, representada na oportunidade por Maria Amélia Vaz da Silva, promoveu na Cidade de São Paulo uma degustação com mais de vinte vinícolas, que aproveitaram o momento para dar a conhecer as novidades e os rótulos que já se revelam ícones no mercado brasileiro. Além da participação na degustação livre,  profissionais, jornalistas, blogueiros e demais entendidos também participaram das degustações comentadas de vinhos alentejanos, conduzidas pelo jornalista brasileiro (RJ) Alexandre Lalas –”A importância da Aragonez”

 

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Sobre a Aragonez –

Em 1800 já era plantada no Alentejo, espalhando-se depois pelo Douro onde tem o nome de Tinta Roriz. Também está presente no Dão, Estremadura, Ribatejo e Terras do Sado. Apresenta cachos de tamanho médio, de formato cilíndrico-cônico, com bagos pequenos, achatados, uniformes e de cor negro-azul. Deve ser vindimada na época correta, pois os seus bagos se transformam rapidamente em passas.  Os vinhos obtidos com Aragonez desenvolvem inicialmente aromas de ameixas e frutos silvestres, que se complexam com a evolução. Na boca são macios, estruturados, taninosos e bastante complexos. O Aragonez faz parte do grupo das “cinco grandes” castas recomendadas para os vinhos do Porto. No Alentejo, é irmã da Trincadeira na maioria dos vinhos tintos. É a mesma Tempranillo da Espanha, onde também é denominada em diferentes regiões como Tinta de Toro, Tinta del País, Cencibel e Ull de Lebre. Em Portugal, no Alentejo, é denominada Aragonez. Ainda mais rara que a Touriga Nacional em vinhos varietais, a Tinta Roriz está presente nas diversas regiões vinícolas portuguesas.  Há que se ficar atento para a procedência dos clones. Somente os de melhor qualidade permitirão a produção de vinhos que exprimam o caráter varietal  da cepa. A seguir as descrições e avaliações dos vinhos degustados:

 

 

Porta da Ravessa DOC Rosé 2016 – Álcool: 12,5% – Variedades: Aragonez e Castelão – Região: Serra D’Ossa – Preço: R$ 35 – elaborado com uvas da Serra D’Ossa, este untuoso rosé exibiu cor de tonalidade intensa, brilhante, aromas de frutas escuras, bala de framboesa e até groselha. Paladar denso, medianamente fresco, frutado mas de persistência média-curta, mas sem amargor. Avaliação: 87/100 pts.

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Art. Terra Amphora Herdade de São Miguel VRA 2016 – Álcool: 13,5% – Variedades: Moreto, Trincadeira e Aragonez – Importador: Cantu – Preço: R$ 220 – este tinto foi uma agradável surpresa da degustação. De cor violáceo púrpura com alguma profundidade, apresentou aromas complexos com sugestões de frutas negras e especiarias em profusão. No paladar verificamos a confirmação das sensações olfativas. Tânico (ótima qualidade), alcoólico, expressivo, potente, acídulo é um típico alentejano que tem no equilíbrio um de seus destaques. Suculento, profundo, sem arestas e de grande personalidade que apresenta-se aos poucos na taça. Enfim, um tinto para ter lugar garantido na adega!  Avaliação: 90/100 pts.

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Cortes de Cima Chaminé VRA 2014 – Álcool: 13,5%  – Variedades: Aragonez, Syrah, Touriga Nacional, Alicante Bouschet e Trincadeira – Preço: R$ 89 – Importador: Adega Alentejana – vermelho-rubi intenso, brilhante. Bons aromas com sugestões de frutas maduras, taninos macios, alguma concentração de sabor num tinto de médio corpo, pronto para beber mas que não esconde possuir alguma capacidade de guarda no médio prazo. O fim-de-boca é agradável, sem qualquer aspereza. Avaliação: 89/100 pts.

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Medeiros Vinho Regional Alentejano 2014 – Álcool: 14,5% – Variedades: Touriga Nacional, Syrah, Aragonez e Cabernet Sauvignon – Importador: GRK Products – vermelho-rubi intenso, profundo. Aromas florais e especiados sobre uma nota mentolada (Cabernet Sauvignon?). Boca firme (taninos presentes), estruturada e razoavelmente equilibrada. Quente, persistente, termina com alguma rugosidade. Avaliação: 88-89/100 pts.

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Herdade do Rocim Reserva Vinho Regional Alentejano 2014 – Álcool: 15% – Variedades: Touriga Nacional, Alicante Bouschet e Aragonez – preço médio: R$ 179 – quase retinto na cor, este tinto de personalidade vincada tem aromas complexos de frutas negras, tabaco e alcaçuz.  No paladar, taninos polidos, acidez intensa, álcool generoso e uma ponta de frutas negras completam o conjunto. De grande potência, um tinto complexo que termina macio e longo. Avaliação: 90/100 pts. 

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Marquês de Borba Reserva DOC Alentejo 2014 – Álcool: 14% – Variedades: Aragonez, Alicante Bouschet, Trincadeira e Cabernet Sauvignon – preço médio: R$ 390 – O tinto Marquês de Borba mais uma vez confirmou seu protagonismo no Alentejo. Um tinto elegante e cheio de classe. Um ex-libris alentejano, cujo terroir se caracteriza pela quantidade de mármore existente no solo, pluviosidade adequada e pouca insolação. Também leva uma pitada de Cabernet Sauvignon que lhe lhe dá fruta, estrutura e elegância. Análise organoléptica: violáceo intenso, profundo, brilhante. Muito complexo no nariz com notas de grafite, licor de cassis, ameixa e cereja em profusão. A Cabernet Sauvignon está presente, todavia, sem as cansativas notas de pirazina e pimenta verde. Boca no mesmo diapasão, taninos cheios de virilidade sem macular o equilíbrio do conjunto, no entanto. Potente é um tinto que tem “pegada”, persistente, sofisticado, elegante e sobretudo harmônico. Aqui, a única coisa em excesso é a elegância. Avaliação: 92/100 pts.

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Poliphonia Reserva Vinho Regional Alentejano 2014 – Álcool: 14,5% – Variedades: Aragonez, Syrah e Alicante Bouschet – importador: Adega Alentejana – Amadurecido doze meses em barrica nova de carvalho francês – preço médio: R$ 199 – Púrpura profundo com reflexo violáceo nas bordas. Aromas complexos com notas florais (violetas), lácteas, fruta negras, discreto vegetal (esteva) sobre licor de cassis. Boca no mesmo diapasão. O perfil sedoso de seus taninos  presentes lhe confere uma singular elegância bordalesa. A acidez pujante (não é cortante) confirma a tipicidade alentejana. Álcool generoso conferindo força, estrutura e discreta sensação de ligeireza. Concentrado, profundo, com camadas sobre camadas de sabor. Perfil moderno sem novamente negar o DNA alentejano. Um vinho consensual, agradável, cheio de frescor e comprometido com o prazer. Longo, termina remetendo o degustador às sensações gustativas iniciais. Precisa de mais algum tempo para seu completo afinamento na garrafa. Avaliação: 91/100 pts.++

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Esporão Reserva DOC Alentejo 2014 – Álcool: 14,5% – Variedades: Aragonez, Trincadeira,  Cabernet Sauvignon e Alicante Bouschet – importador: Qualimpor –preço médio: R$ 149 – este vinho estagiou doze meses em barrica de carvalho americano (70%) e francês (30%). Após o engarrafamento seguiram-se mais doze meses de estágio na garrafa. Análise organoléptica: exibiu cor vermelho-rubi profundo com halo púrpura indicando tratar-se de um vinho jovem. Nariz aberto com ligeiro toque floral (violetas), mentol, alcaçuz e uma nota de baunilha. Na boca seus taninos são intensos, finos e lhe conferem sólida estrutura e elegância. Álcool generoso. Boa acidez. Concentrado, a madeira permite a expressão da fruta. Potente, suas notas de chocolate conferem-lhe um perfil vigoroso, rico, longo e  persistente.  Um vinho de bom frescor, frutado e que deverá apresentar evolução na garrafa nos próximos anos. Termina aveludado, sem arestas, com uma harmonia de fazer escola. Um vinho confiável e de grande tipicidade alentejana. Avaliação: 91-92/100 pts.+

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.BEB Vinho Regional Alentejano 2012 – Álcool: 14,5% – Variedades: Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon, Touriga Nacional, Syral e Aragonez – Sub-região: Extremoz – Importador: Adega Alentejana – preço médio: R$ 99 – vermelho-rubi com halo granada em formação. Aromas caminhando para o perfil terciário com especiarias doces (canela, baunilha), matéria orgânica em decomposição sobre um fundo que lembra tabaco. Na boca os 14,5% se destacam promovendo uma sensação de calor, taninos macios, boa acidez e fim-de-boca de média persistência. Avaliação: 88/100 pts.

 

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Monte do Pintor Reserva VRA 2011 – Álcool: 15% – Variedades: Trincadeira, Aragonês e Cabernet Sauvignon – Adega Alentejana – R$ 215,00 – amadurecido 12 meses em barrica de carvalho francês acrescido de mais 12 meses na garrafa antes de sua liberação ao mercado. Análise organoléptica: exibiu cor semelhante à do vinho anterior, todavia seu perfil aromático é diverso, com apontamentos vegetais (aportados pela Trincadeira) sobre um fundo de fruta em compota e ligeiro tostado. Melhor na boca, com boa concentração de fruta (groselha, framboesa), taninos presentes sem incomodar, leve sobra de álcool, final longo num vinho pronto para ser bebido. Enfim, mais um Alentejano de perfil clássico de minúscula produção. Avaliação 90/100 pts.

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Fonte Mouro Garrafeira VRA 2003 – Álcool: 14,5% – Variedades: Trincadeira, Aragonês e Alicante Bouschet – Sub-região: Beja – Preço médio em Portugal: € 15,00 – Amadurecido em barricas de carvalho francês e americano durante 14 meses. Degustado pela segunda vez por este redator (a primeira foi em 24.01.2014 na vinícola). Análise organoléptica: profundo, concentrado na cor que já assinala o peso dos anos com seu nítido reflexo granada. Aromas complexos com tabaco, especiarias, flores secas, cogumelos sobre uma nota medicinal. Depois de algum tempo discreto mentolado. No paladar sua entrada revelou um vinho de taninos macios, maduros, de fina textura. Álcool e acidez em sintonia. Toda complexidade olfativa foi confirmada na boca. Macio, elegante, justificou as diversas medalhas no rótulo, de fato confirmou seu nível de qualidade, com destaque no quesitos “tipicidade” e “longevidade”. Avaliação: 90/100 pts.+

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Dona Maria Rosé Vinho Regional Alentejano 2016 – Álcool: 12% – Variedades: Aragonez e Touriga Nacional – preço não divulgado – importador: P.P. S. – a degustação começou num rosé de perfil tradicional e terminou num de perfil moderno, sem perder de vista a tipicidade alentejana. Este rosé chamou atenção por sua intensidade de fruta e aromas florais (pétalas de rosa). Acídulo, potente, refrescante, muito vivaz, é um verdadeiro “lobo em pele de cordeiro” porque é um rosé encorpado e versátil, eis que pode ser bebido sozinho ou acompanhando refeições leves. Avaliação: 89/100 pts.

CONCLUSÃO –

Portugal, tem as condições ideais para produzir vinhos de classe mundial, sobretudo os do Alentejo. O clima consegue adicionar aos vinhos a componente de frescura e complexidade e o solo tambéem revela-se apropriado para o cultivo da vitis vinifera. O cultivo de castas locais misturadas com francesas – aqui destaco a Syrah que  parece ser a de melhor resultado – confere aos vinhos personalidade única. São vinhos superlativos em todos os sentidos e, amiúde, de preços relativamente acessível. Talvez seja por isso que Portugal desbancou a Argentina na segunda colocação na venda de vinhos importados no Brasil. À corroborar essa assertiva, destaco a firme atuação da CVRA no mercado brasileiro a contrastar com a fraca e inexpressiva atuação da Wines of Argentina no Brasil. E, a qualidade emergente de brancos e tintos alentejanos fortalecem a presença dos produtores portugueses no cenário brasileiro. Basta uma passada de olhos nas pontuações acima. De doze vinhos, sete obtiveram notas acima dos 90/100 pts.!! Nenhum vinho ficou abaixo dos 87/100 pts. o que é um dado bastante significativo.

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