Vinho não é matemática – A pretexto de Jancis Robinson

A seguir, texto de José João Santos, DD. Editor de Conteúdos da respeitadíssima Revista de Vinhos – Portugal, acerca da passagem de Jancis Robinson pela terrinha.

José João Santos

Acredito piamente que não é por ser português que tenho que ser necessariamente invejoso. Ou ter a mania que sou melhor do que os pares. Esse é um sentimento que sai reforçado quando estamos com alguém que é uma verdadeira referência – e Jancis Robinson é das principais referências do mundo do vinho.

Nunca fui de idolatrar. Mesmo em puto, nunca corri atrás de um autógrafo do grande bibota d´ouro, um dos melhores avançados que me lembro de ver jogar e que, sorte a minha, durante anos a fio envergou a camisola do meu clube. Lembro-me de quase ter chorado ao saber que não iria conseguir jogar a épica final de Viena, em maio de 1987, mas até por isso o calcanhar de Madjer e o golo de Juary foram mais festejados.

Fora isso, e futebóis à parte, lembro-me de vários anos mais tarde ter pedido umas três ou quatro dedicatórias a amigos que acabavam de lançar livros. Ídolos, propriamente ditos, não tenho. Acho que nunca tive. Pessoas que admiro bastante, sim, algumas.

No mundo do vinho, Jancis Robinson integra o grupo de líderes de opinião que mais admiro. Além de lhe respeitar o currículo, considero notável os exercícios de opinião e análise que faz frequentemente, em artigos que publica online e em publicações como o conceituado Financial Times ou a portuguesa Revista de Vinhos.

Por estes dias Jancis regressou a Portugal, precisamente a convite da Revista de Vinhos, aceitando o desafio de eleger os 10 vinhos portugueses que mais a marcaram nos últimos 10 anos – uma forma de celebrar uma década de colaboração com a EV-Essência do Vinho, levando em consideração os artigos publicados na descontinuada revista WINE – A Essência do Vinho.

Tive o privilégio de a entrevistar e de conversar, em registo mais descontraído. Retenho desde logo algumas mensagens, como o facto de valorizar a capacidade de envelhecimento e evolução dos vinhos portugueses (brancos e tintos, porque Portos e Madeiras há muito que se lhes está rendida) ou até mesmo de alertar os produtores portugueses para as novas especificidades do mercado britânico de vinhos – o temor dos efeitos ainda desconhecidos do Brexit está a tornar os britânicos mais prudentes e Jancis considera que o aumento de preço dos vinhos portugueses, se não for sensato, pode trazer alguns problemas naquele mercado no médio prazo. Retive ainda a humildade com que explicou, durante a apresentação que fez perante audiência atenta de convidados no Sheraton Lisboa, que escolheu aquela dezena de vinhos como poderia ter selecionado outros 10. Nada de absolutismos.

Mas, aquilo que verdadeiramente mais admiro em Jancis Robinson é a capacidade de nos obrigar a refletir. Experiente e conhecedora dos vinhos do mundo – conhecimento conquistado não apenas através de provas mas, sobretudo, de visitas aos quatro cantos do globo –, partilha e confronta realidades e modos de fazer, dá conta de novidades e não esquece os contextos históricos de onde provêem, antecipa tendências sem entrar no facilitismo da mera adivinhação. Isso, acreditem, não está ao alcance de todos.

Talvez por tudo isto, Jancis Robinson seja das personalidades mais respeitadas no vinho. Alguém a quem o setor, em Portugal ou em qualquer outro país do mundo, reconhece competência, seriedade e rigor de análise.

Opinar de forma fundamentada e consistente é admirável. O mais fácil é sempre dizer mal de tudo, estar contra o que seja ou, pelo contrário, elogiar o que mexe ou dar a entender que se sabe o que se está a dizer. Ser-se verdadeiramente grande é admitir não se ser o dono absoluto da razão (os donos disto tudo acabam sempre em maus lençóis) e ter a humildade (esse traço de personalidade tão saudável) de tentar perceber melhor, de estudar mais, de ouvir outros.

Se comecei pelo futebol, termino pela música.

Jancis Robinson lembra-me aquelas estrelas que, por muito cansadas que possam estar, têm sempre disponibilidade para um autógrafo, para um sorriso, para uma fotografia – algo tantas vezes negado ou indisfarçavelmente conseguido a custo por tantos que se julgam estrelas… e não o são.

Não lhe pedi um autógrafo. Tirei uma foto com Jancis Robinson para o álbum das memórias. Todavia, o que mais retive foi a oportunidade de aprender umas coisas mais com alguém que conhece bem melhor do que eu o mundo do vinho. E sou dos que acredita que aprendendo com os melhores se consegue ser melhor.

José João Santos / 27.10.2017

Att: os negritos e itálicos são nossos.

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