No dia 23 de junho de 2018, no Restaurante Zeffiro, os membros da Confraria Esvaziando a Adega reuniram-se para degustar, às cegas, uma vertical de Casa Lapostolle – Cuvée Alexandre Merlot – safras 2001, 2007 e 2008.  

Atualmente o Cuvée Alexandre custa R$ 218,44 – safra 2013 na importadora Mistral

A Viña Lapostolle foi fundada em 1994 por Alexandra Marnier Lapostolle e seu marido Cyril de Bournet. Os Marnier Lapostolle, família criadora e proprietária do famoso licor Grand Marnier, têm um relacionamento de longa data com a viticultura. Na criação da Lapostolle, a família manteve a visão de longo prazo e o compromisso com a qualidade, razão do sucesso mundial de seus vinhos. Na Lapostolle, o objetivo é tão simples quanto ambicioso: criar vinhos de classe mundial aproveitando a expertise francesa e o soberbo terroir do Chile. Os fundadores escolheram o Vale de Colchágua, especificamente a área de Apalta, pelo grande potencial para produzir vinhos tintos de alta qualidade. Construiu-se a vinícola Clos Apalta, com um design único e vanguardista. É uma vinícola totalmente orgânica e biodinâmica, certificada por organizações internacionais, tais como Ceres, Deméter e The Carbon Neutral Company. Além disso, obteve certificação ambiental ISO 14.001 – importador: Mistral

Os vinhos da vertical foram conservados na adega climatizada deste redator.

No livro “A experiência do gosto: O mundo do vinho segundo Jorge Lucki”, o autor assinala que: “Foi Rolland quem indicou o Chile para a Família Marnier-Lapostolle – a mesma dos licores Grand Marnier – que procurava uma região vinícola para diversificar e se instalar fora da França. Na Casa Lapostolle, o consultor maneja com maestria a Merlot, a uva principal de Pomerol, sua terra de origem. Não é de se estranhar que a vinícola produza o melhor Merlot chileno, denominado Cuvée Alexandre e, com essa uva, mais Carménère, Cabernet Sauvignon e um pouco de Malbec, molde um dos grandes vinhos premium do Chile, o Clos Apalta”.

A seguir os vinhos na ordem das preferências dos degustadores, destacando que a prova transcorreu às cegas, no Zeffiro, com o almoço perfeito: cordeiro à portuguesa como destaque. Dela participaram, além deste redator, José Luiz, Melissa, Lucas, Clóvis e Eduardo Norya:

Zeffiro – Rua Frei Caneca 669 – São Paulo/SP

1° lugar – Cuvée Alexandre Merlot 2007 – Álcool: 14,5% – Variedades: Merlot (85%) e Carmenère (15%) – Região: Vinhedo Apalta situado na zona do Vale de Colchágua, sub-região do Vale de Rapel, Vale Central chileno – Na vinificação as uvas são selecionadas manualmente em mesa de triagem, tão logo cheguem na adega. Elas são fermentadas em cubas de aço inoxidável, à 28-30º C, por 15 dias, seguido de 2 semanas de maceração com as cascas. Amadurecimento: 11 meses, em barricas de carvalho francês, 40% novas. O enólogo-consultor é Michel Rolland do Pomerol, também conhecido por “Monsieur Merlot” – Preço na época da aquisição: US$ 47,90 – Preço atual – US$ 55,90 (safra 2013) – Análise organoléptica: vermelho-rubi  intenso com halo granada. Nariz aberto, intenso, de perfil terciário com notas de tabaco, chocolate, algum terroso sobre um fundo herbáceo. Harmônico na boca confirmando o nível de excelência alcançado por alguns tintos chilenos da safra 2007: taninos finíssimos, álcool integrado e acidez viva. O sabor remete diretamente aos cânones de um Merlot maduro, seco, de toques carnicos, animais, confirmando a complexidade dos aromas. Expansivo e dotado de uma invejável estrutura a lhe conferir um final longo, macio e extremamente agradável.

2° lugar – Cuvée Alexandre Merlot 2001 – Álcool: 14% – Região: Vinhedo Apalta situado na zona do Vale de Colchágua, sub-região do Vale de Rapel, Vale Central chileno – Na vinificação as uvas são selecionadas manualmente em mesa de triagem, tão logo cheguem na adega. Elas são fermentadas em cubas de aço inoxidável, à 28-30º C, por 15 dias, seguido de 2 semanas de maceração com as cascas. Amadurecimento: 12 meses, em barricas de carvalho francês, seguido de mais doze meses de afinamento na garrafa. O enólogo-consultor é Michel Rolland do Pomerol, também conhecido por “Monsieur Merlot” – Análise organoléptica: alguns críticos apontam 2001 como uma das melhores safras para tintos de Colchágua na década passada. É provável que essa afirmação seja verdadeira, uma vez que este vinho envelheceu muito bem e com dignidade. Vamos à sua descrição: coloração granada esmaecido brilhante, sem partículas em suspensão. Aberto nos aromas terciários com notas animais (couro), cogumelo, café, ervas secas sobre um fundo balsâmico com boa sustentação na taça. Na boca exibiu taninos muito finos, aveludados, polimerizados pelo tempo, denotando alguma fragilidade, mas de elegância ímpar. O corpo é delicado, sútil, elegante com uma ponta mineral. Vinho seco, que suportou a passagem de dezessete anos – o tempo só lhe fez bem – a corroborar que o Chile, se quiser, pode produzir Merlots de classe internacional….ao menos pode-se dizer que a Casa Lapostolle mantém seu compromisso de elaborar um Merlot dessa envergadura, mas com o advento da Carménère e sua plena aceitação nos mercados internacionais, a caprichosa Merlot foi quase abandonada em todas as principais regiões vinícolas chilenas. Enfim, este Cuvée Alexandre é apenas uma prova do nível de qualidade alcançado pela Merlot na América do Sul. Para nosso regozijo, no Brasil seu cultivo não foi abandonado, sendo uma das principais ou a principal variedade destinada à elaboração de vinhos de  alto nível qualitativo. Para encerrar, o vinho foi aberto no momento certo e, nos próximos anos, não ganhará mais nada com a passagem do tempo.

3° lugar – Cuvée Alexandre Merlot 2008 – Álcool: 15% – Variedades: Merlot (85%) e Carmenère (15%) – Região: Vinhedo Apalta situado na zona do Vale de Colchágua, sub-região do Vale de Rapel, Vale Central chileno – Na vinificação as uvas são selecionadas manualmente em mesa de triagem, tão logo cheguem na adega. Elas são fermentadas em cubas de aço inoxidável, à 28-30º C, por 15 dias, seguido de 2 semanas de maceração com as cascas. Amadurecimento: 11 meses, em barricas de carvalho francês, 40% novas. O enólogo-consultor é Michel Rolland de Pomerol, também conhecido por “Monsieur Merlot” – Preço na época da aquisição: US$ 47,90 – Preço atual – US$ 55,90 (safra 2013) – Análise organoléptica: vermelho-rubi intenso com halo granada em formação. Nos aromas uma boa expressão de fruta em compota, chocolate, café, mentol e uma pontinha de ameixa em calda. Na boca, mais uma vez um conjunto harmônico. O álcool na casa dos 15% não desequilibra o conjunto, de sólida estrutura de taninos a lhe garantir alguns anos pela frente. Um dos diferenciais do Cuvée Alexandre é sua acidez, bem acima da média e o uso judicioso das barricas de modo a não encobrir a fruta. Sim, a fruta se fez presente e, apesar de uma década este foi o único exemplar da vertical na qual ela deu o ar da sua graça. É uma fruta madura, em compota, mas sua presença aos dez anos é sinal de que o vinho ainda vai evoluir. 2008 foi uma safra intermediária em Apalta. O final é persistente, mentolado e convidativo. Não tem a mesma elegância dos exemplares anteriores, mas tem a tipicidade esperada para um Merlot da sua categoria.

Viña Casa Lapostolle – crédito da imagem: https://www.visitchile.com.br/vinha-casa-lapostolle/

 

A seguir o ranking deste redator com as respectivas pontuações:

1° lugar – Cuvée Alexandre Merlot 2001 – Álcool: 14% – Região: Vinhedo Apalta – Avaliação: 92/100 pts.

2° lugar – Cuvée Alexandre Merlot 2007 – Álcool: 14,5% – Variedades: Merlot (85%) e Carmenère (15%) – Região: Vinhedo Apalta – Avaliação: 91/100 pts.

3° lugar – Cuvée Alexandre Merlot 2008 – Álcool: 15% – Variedades: Merlot (85%) e Carmenère (15%) – Região: Vinhedo Apalta – Avaliação: 90/100 pts. 

 

CONCLUSÃO –

Algumas pessoas por desinformação ou puro preconceito afirmam que os vinhos sul-americanos não duram e nem melhoram com o tempo. Este redator conheceu um editor de uma extinta revista de vinhos brasileira que pensava dessa maneira. “Vinho é dos poucos alimentos consumidos muitos anos depois da fabricação. Com o líquido em constante alteração, o momento exato de abrir uma garrafa é incerto como partículas da física nuclear. A única maneira de constatar se um vinho está bom é tirando a rolha. Antigamente, só os grandes franceses, como os Bordeaux, conseguiam sobreviver a longos períodos de guarda. Hoje, como comprova a degustação desta página, inúmeros vinhos do Novo Mundo também ganham com o tempo na garrafa”. O trecho retro foi retirado de uma matéria publicada no caderno Paladar do Estadão há quase dez anos atrás (26.03.2009) e ilustrou a matéria “Vendo o tempo passar na vertical”. Conceitualmente, vertical é a degustação do mesmo vinho, mesmo produtor, de safras diferentes. Pode ser qualquer tipo de vinho de quantas safras for. O ideal é degustar no mínimo três safras próximas entre si. Serve para nos dar uma dimensão de como as estações do ano, frio, seca, chuva, vento, afetam os vinhos, que sempre são diferentes. Muito interessante para compreender a evolução do vinho na garrafa, suas mudanças com a passagem dos anos, a influência do local e das características climáticas do ano daquela safra. Por fim, vamos à conclusão propriamente dita da vertical do vinho degustado. Longevidade, elegância e equilíbrio. Essas são as maiores virtudes do Cuvée Alexandre Merlot, provavelmente o melhor Merlot chileno em produção. Na vertical ficou sobejamente provado que o tempo passa bastante devagar para este elegante tinto chileno. À corroborar essa assertiva verificamos que o mais antigo da vertical – 2001, demostrou vigor aos dezessete anos. Mas se envelhecer mais não ganhará complexidade, eis que seu auge já passou. O Cuvée Alexandre é  o tipo de vinho cujo o tempo na garrafa joga a seu favor. Vale à pena ter algumas safras na adega para acompanhar sua evolução. Já o 2007 – o preferido dos confrades – exibiu grande vigor aos onze anos e, pelo que foi observado do 2001 – ainda tem o que evoluir. E, finalmente, o 2008 ficou um pouco abaixo, mas não muito, eis que tem vida na garrafa pela frente. De fato, o Cuvée Alexandre Merlot comprovou na vertical que é um vinho que está à altura da sua fama e que, se não custa barato (R$ 218,44 – safra 2013 na Mistral. Registro que a os vinhos da linha Cuvée Alexandre fora do Brasil custam US$ 20 em média), ao menos podemos dizer que vale o preço por se tratar de um Merlot longevo de excelente tipicidade.

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