Espetacular vista do Vale de Colchágua –

Em 15.08.2018, a Associação de Pequenos Produtores do Vale de Colchágua – Colchagua Singular – presidida pelo Enólogo José Ignácio Maturana promoveu, em São Paulo, na Casa Bartira, degustação Master Class organizada pelo Sommelier chileno Francisco Zúniga, seguida de degustação livre. Vinhos de produção diminuta, alguns orgânicos/biodinâmicos, bem elaborados, sem excessos, frescos, elaborações verdadeiramente artesanais (alguns produtores fazem 200, 300 garrafas de cada variedade), a maioria expressando o acalentado “sentido de lugar”. Apoiados pelo ProChile são produtores pequenos mas de enorme vocação na busca da excelência da qualidade. De forma resumida, o que mais impressionou este redator foi a seriedade e elegância dos vinhos elaborados. Sem medo de errar, o país Andino tem condições invejáveis para a vitivinicultura e o verdejante Vale de Colchágua é uma das regiões vinícolas mais promissoras do Novo Mundo. Sua conformação, típica da região central do Chile “leste-oeste” (Cordilheira dos Andes – Oceano Pacífico), difere do resto porque tem duas pontas perpendiculares, uma cadeia contínua de colinas ao norte e uma cadeia de colinas ao sul, separadas em média por 35 km, e a Cordilheira da Costa, com alturas inferiores a 500 m. s. n. A seguir nossas impressões dos vinhos degustados, infelizmente por motivos alheios à nossa vontade não conseguimos provar vinhos de todos produtores presentes:

Viña Nahuel Ltda. representada pelo enólogo suíço Daniel Wiederker – vinícola estabelecida em Nancágua, a 15 km de Santa Cruz, possui seis hectares de vinhedos de mais de 70 anos cultivados de acordo com a cartilha orgânica produzindo vinhos orgânicos sem certificação:

Patagua Selección Sémillon – Sauvignon Blanc 2018 – Álcool: 13% – Região: Patagua/Santa Cruz/Colchágua – Variedades: Sémillon (80%) e Sauvignon Blanc (20%) – Data da colheita: 10.03.2018 –  palha claro translúcido. Aromas intensos alternando florais e cítricos, paladar no mesmo diapasão, com o frescor e acidez cítrica da Sauvignon Blanc se destacando. Um branco que tem sua estrutura calcada na Sémillon que combinada com a SB resulta em excelente tipicidade, de nítido estilo Bordalês. Avaliação: 90/100 pts.

Nahuel 2015 – Álcool: 14,5% – Variedades: Cabernet Sauvignon, Carménère, Malbec e Syrah – Região: Patagua/Santa Cruz/Colchágua – vinho amadurecido 24 meses em barricas francesas – segundo o Enólogo Daniel Wiederker a Cabernet Sauvignon (50%) aporta elegância e corpo, Carménère (30%) aromas e taninos, Malbec (12%) aromas de ameixa, tabaco e violetas e Syrah (8%) com suas típicas notas especiadas. Fermentação em barrica aberta. Aqui o carvalho francês é utilizado nas seguintes proporções: 1/3 novo, 1/3 1° uso e 1/3 2° uso. Análise organoléptica: vermelho-rubi intenso. Nos aromas frutas vermelhas, especiarias e baunilha. No paladar taninos finíssimos num tinto que sobra elegância, sem arestas, esbanjando fruta que em nenhum momento foi subjugada pela madeira. O equilíbrio lembra os grandes Bordeaux da margem direita. Taninos muito macios. Termina harmonioso, persistente. Avaliação: 91/100 pts.

Caven Wines representada por Francisco Caroca Muñoz – vinícola estabelecida em Marchigüe, Vale de Colchágua, Região de O’higgins – vinhos degustados:

Caven Clasic Cabernet Sauvignon 2015 – Álcool: 14,5% – Região: Marchigë/Colchágua – preço médio: US$ 7,00 – intenso na cor, exibiu groselha e licor de cassis em abundância nos aromas. Taninos macios, enfim um CS de ótima tipicidade, de perfil moderno, fácil de beber e de gostar. Avaliação: 89/100 pts.

Caven Syrah (70%) e Cabernet Sauvignon (30%) 2016 – Álcool: 14,5% – Região: Marchigüe/Colchágua – preço médio: US$ 12,00 – vinho amadurecido 24 meses em carvalho francês de segundo uso – apenas 1.600 garrafas produzidas – intenso na cor, frutas vermelhas, especiarias e madeira dominam os aromas. No paladar um vinho de perfil clássico, potente, com a madeira bem perceptível, taninos muito macios, uma ponta de álcool, boa concentração de sabor num tinto que pede tempo para o seu completo afinamento na garrafa. Avaliação: 89-90/100 pts.+

Viña Travesia (Agrícola Tierras de Lolol). representada pelo enólogo suíço Daniel Wiederker, no lugar do proprietário Juan Canales – vinícola estabelecida na D.O. Placilla – vinho  degustado:

Aprendiz 2015 – Álcool: 13,6% – Variedades: Syrah (40%), Cabernet Sauvignon (40%), Petit Verdot (11%) e Cabernet Franc (9%) – apenas 2.300 garrafas produzidas – vermelho-rubi, aromas marcados pela fruta e especiarias. Bom volume de boca, principalmente em razão dos taninos de ótima qualidade. Descomplicado, apetecível, termina macio e persistente. Avaliação: 89-90/100 pts.

Viña Nerkihue representada por Bernardo Arteaga P. – vinícola que produziu 14.000 garrafas em 2017, cultiva Chardonnay, Viognier, Cabernet Sauvignon, Carménère, Syrah e Petit Verdot, estabelecida na D. O. Lolol, Vale de Colchágua, Região de O’higgins – vinhos degustados:

Nerkihue Malbec 2016 – Álcool: 13,5% – Região: Lolol/Colchágua – sem passagem por madeira, apenas 1.600 garrafas produzidas deste Malbec Costeiro, videiras cultivadas em solos graníticos franco-arenosos em “laderas” de pouca profundidade beneficiadas pela brisa marítima,  elaboração artesanal – Análise organoléptica: vermelho-rubi intenso. Aromático com violetas, cereja e mentol no nariz, taninos macios num Malbec de perfil fresco, leve, elegante, muito equilibrado. Os vinhateiros chilenos começam a desenvolver um estilo próprio de Malbec, fresco, frutado, leve, vivaz, que se distancia dos exemplares alcoólicos e de taninos duros do passado. Avaliação: 90/100 pts.

Justo Family Collection 2007 – Álcool: 14% – Variedades: Syrah (85%) e Petit Verdot (15%) – 18 meses de amadurecimento em barricas de carvalho francês seguido de mais dois anos de afinamento na garrafa – preço médio: US$ 50 – apenas mil garrafas produzidas. Análise organoléptica: vermelho-rubi esmaecido, aromas dignos de um vinho de mais de dez anos de idade com frutas secas, notas mentoladas, especiarias, chocolate e chá preto. Paladar que confirma a sofisticação dos aromas. Taninos aveludados num tinto dotado de uma verdadeira “coluna vertebral”, como convém a um bom Syrah: mastigável, carnudo, bem ao estilo de Colchágua. Tem um toque picante provavelmente aportado pela Petit Verdot. Concentrado, elegante, distinto, termina com grande persistência. Avaliação: 92/100 pts.+

A seguir os vinhos da Viña Lugarejo – Vinos de Autor – www.lugarejo.cl, representados por Elina Carbonell, bodega familiar que desde 2014 elabora vinhos em Nancagua/Colchagua – atualmente cinco são produzidos: Merlot, Cabernet Sauvignon, Carménère, Syrah e o Blend Zafarrancho, que reúne as variedades retromencionadas amadurecidas doze meses em barricas de carvalho francês. A produção média e de 200 a 300 garrafas por variedade.

Lugarejo Vino de Autor Uva País 2017 – Álcool: 12,9% – Região: Peralillo/Nancágua/Colchágua – apenas 336 garrafas produzidas deste exemplar da variedade “País”, de cor violácea, aromas florais e terrosos com uma ponta de cereja.  Na boca, taninos de boa qualidade sem perder a característica dessa variedade que é a rusticidade “refrescante”. Termina com média persistência. Avaliação: 88/100 pts.

Lugarejo Vino de Autor Merlot 2016 – Região: Peralillo/Nancágua/Colchágua – vinho amadurecido doze meses em barricas de carvalho americano de segundo uso e barricas francesas usadas. Análise organoléptica: vermelho-rubi intenso. No início um toque animal que cede para fruta nos aromas (cereja), confirmada no paladar de taninos equilibrados com uma sedutora fruta fresca a lhe conferir excelente tipicidade. Acidez na medida certa. Termina com boa persistência. Avaliação: 89-90/100 pts.

A seguir os vinhos da Viña La Pascuala representados por Daniela Castro Yévenes com dois vinhos: um Carménère e um Cabernet Sauvignon: 

Artesana Carménère 2016 – Álcool: 13,4% – apenas 300 garrafas produzidas deste delicioso Carménère de cor intensa, aromas típicos sem ser cansativo, taninos aveludados de tão macios, repleto de fruta fresca,  enfim, Colchágua se apresenta como a segundo melhor região para essa variedade. Um tinto fresco e equilibrado. Avaliação: 90/100 pts. 

Álvaro Camargo (ProChile) e Ricardo Guzzardi

Artesana Cabernet Sauvignon 2017 – Álcool: 14% – intenso na cor, exibiu típicos aromas com frutas negras, licor de cassis sobre um fundo mentolado. Elegante em decorrência da elegância de seus taninos e do equilíbrio de seus componentes. Termina intenso e longo. Avaliação: 90/100 pts.

A seguir os vinhos Fanoa – Family Vineyard/Bodega San Elias representada por Raúl Narváez R., cujo vinhedo está certificado Orgânico e Biodinâmico (Certificado por Demeter) desde 2012 na região de Palmilla/Colchágua a apenas 8 km de Santa Cruz  –  aqui o vinhedo está plantado em alta densidade, com objetivo de haver menos fruta por planta, na busca pela qualidade. As variedades cultivadas são: Malbec, Carménère, Petite Sirah, Sangiovese, Tempranillo, Cabernet sauvignon, Petit Verdot, Carignan, Garnacha, Syrah, Zynfandel, Mourvedre e em menor quantidade as variedades brancas Viognier e Pinot Blanc. É um desafio que se segue ano a ano vinificar esta quantidade de variedades em pequenas quantidades. No ano de 2016 seis variedades tintas foram escolhidas para se fazer uma mescla que deu origem ao Seis Tintos, primeiro vinho da Fanoa. Este blend pode variar ano a ano, a ideia é da possibilidade de criar e fazer a cada ano uma mescla do que seja mais agradável.

Los Confines Moscatel 2018 – Álcool: 12,5% – Região: Angol/Malleco – aqui as uvas vem do mais austral dos vales chilenos. Na taça cor palha intenso brilhante. Aromas “terpênicos”, doces, típicos da variedade: floral, erva cidreira sobre um toque de mel. Boca seca (contrastando com a maioria dos Moscatéis que conhecemos), de acidez firme e também com boa concentração de sabor, leve mineralidade, com o equilíbrio do conjunto dando o tom, revelando um branco fresco e de grande densidade. O fim-de-boca é persistente, sem amargor. Um exótico Moscatel que vale à pena ser conhecido! Avaliação: 89/100 pts.

Fanoa “Seis Tintos” Biodinâmico 2016 – Álcool: 13,5% – Variedades: Carménère, Malbec, Durif (Petite Sirah), Carignan, Tempranillo e Cabernet Sauvignon – Preço médio: US$ 22 – vermelho-rubi intenso, profundo. Aromas intensos, complexos de ameixas, cerejas sobre leve tostado. No paladar é um tinto concentrado, de bons taninos, álcool integrado, acídulo, enfim tudo está entrelaçado harmonicamente resultando num tinto potente mas muito gentil no paladar. A madeira está integrada, eis que apenas 30% da mescla foi amadurecida em barricas novas de carvalho francês por 12 meses. Termina limpo, com ampla persistência. Aqui a máxima “o todo é maior que a soma de todas as partes” tem pleno cabimento. Avaliação: 91/100 pts.+

Chiflao Vino Artesanal País 2017 – Álcool: 14% – Região: DO Valle de Colchágua – vermelho-rubi, aromas complexos com frutas vermelhas em geleia emolduradas por um toque de vinho fortificado a lembrar um bom Porto. Na boca, é um tinto de taninos presentes que carregam a rusticidade da variedade, aqui muito bem vinificada eis que sua maciez chama a atenção para um tinto elaborado com a uva País. Aliás, este Chiflao é um vinho gostoso, marcado pelo frescor e pela facilidade de sua apreciação. Beba-o descompromissadamente. Avaliação: 89/100 pts.

L’Entremetteuse 2016 – Álcool: 14,5% – Variedades: Syrah (57%), Cabernet Sauvignon (29%), Carménère (9%) e Cabernet Franc (5%) – Amadurecimento: em barricas de carvalho de primeiro e segundo usos e ovos de plástico por 12 meses. Análise organoléptica: vinho de cor intensa, nariz complexo exibindo notas de frutas vermelhas, cerejas pretas, especiarias sobre um fundo tostado. No paladar é rico, os taninos são muito macios, o álcool está integrado, a acidez é muito boa, enfim, um tinto flexível, marcado pela finesse. Merece envelhecer um pouco na garrafa quando ganhará harmonia. Avaliação: 90/100 pts.+

No próximo post os vinhos de José Ignácio Maturana serão abordados. Blogdojeriel.jpg

CONCLUSÃO –

A Associação de Pequenos Produtores do Vale de Colchágua – Colchagua Singular – presidida pelo Enólogo José Ignácio Maturana, apresentou-se pela primeira vez em São Paulo, principal mercado de vinhos importados do Brasil, no último dia 15 de agosto. E não decepcionou, nem um pouco, senão vejamos. O evento, preparado pelo Sommelier Francisco Zuñiga primou pela organização e não houve superlotação como sói acontecer. Houve o apoio do ProChile que se fez presente na pessoa de Maria Julia Riquelme – Diretora do ProChile – Escritório Comercial do Chile no Brasil e de Álvaro Camargo – Assistente de Direção do ProChile. Na oportunidade, pequenos vinhateiros exibiram brancos (vibrantes) e tintos (inovadores), todos com sentido de lugar. No mercado brasileiro a competição é acirrada, mas a liderança folgada é do Chile, que através de grandes conglomerados vinícolas (Concha y Toro, Viña San Pedro, Santa Carolina, etc…) inunda e domina com vinhos detentores de relação preço-qualidade bastante conhecida do público local. Mas o que vimos e bebemos nessa degustação (registro que não participamos da Master Class por problema de agenda) nos deixou atônito e reforçou aquilo que de certa maneira já intuíamos: Colchágua é um vale espetacular, com uma incrível diversidade de terroirs que não são explorados somente pelas grandes vinícolas – algumas bastante conhecidas dos brasileiros (Lapostolle, Viu Manent, Casa Silva, Montes, etc..). Lá há pequenos desbravadores que produzem quantidades simbólicas; alguns elaboram lotes diminutos (200 a 300 garrafas por variedade) de vinhos simplesmente extraordinários por preços realistas. Produtos de elevada qualidade que se distanciam do “mais do mesmo” amiúde oferecido pelos grandes produtores, eis que elaborados artesanalmente, com respeito à natureza, orgânicos, biodinâmicos ou simplesmente produzidos honestamente de forma convencional. Enfim, a nossa recomendação é para se mostrarem mais vezes a fim de encontrar importadores dispostos a trazer esses vinhos para o Brasil, porque há mercado para eles. Repito: para bons produtos sempre haverá consumidores dispostos a comprá-los. São pequenos produtores que produzem vinhos de grande qualidade. Encerramos este texto fazendo um brinde aos pequenos produtores de Colchagua – Singular e um cumprimento especial para o Sommelier Francisco Zúñiga e para o Enólogo José Ignacio Maturana pela felicidade da iniciativa. A todos Salut!!!

 

 

 

Degustação Colchagua Singular em São Paulo – Blogdojeriel.jpg
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