“Buenos Aires – Aqui se trocam moedas por vinos!”

Por Miriam Aguiar

Achar vinho para comprar e beber nunca foi tarefa difícil em Buenos Aires, pelo contrário, a capital portenha sempre foi um dos, senão o maior dos centros gourmets da América Latina, com hábitos similares às grandes cidades européias. Cafés, bares, restaurantes, casas noturnas, etc.. Buenos Aires ferve dia e noite e o vinho sempre esteve à mesa, mesmo que com formatos e rótulos diferenciados. Agora que nossas prateleiras estão lotadas de malbecs argentinos, associamos o país ao vinho, mas num passado nem tão distante, o consumo de vinhos dos nossos vizinhos era três vezes (ou mais) maior, antes de toda a revolução que a fez despontar como um dos expoentes do Novo Mundo do Vinho.

TANGO1

Imagens da Feira de San Telmo, que acontece em Buenos Aires aos domingos
Imagens da Feira de San Telmo, que acontece em Buenos Aires aos domingos

Mas quantidade nem sempre quer dizer qualidade e, a exemplo de outros países com histórico de grande consumo de vinhos, hoje se consome menos e melhor na Argentina. Há pouco mais de uma década, era comum vermos as mesas portenhas cheias de garrafas de vinhos com nomes de cânones franceses:  Borgoña, Chablis, Champagne. Tempos em que colocar um codinome francês era sugerir qualidade no vinho. Hoje, por questões regulamentares e de mercado, colocar tais nomes nos rótulos significaria o contrário: um vinho sem identidade e fora de contexto.

VINHOS

Agora os rótulos argentinos é que povoam outros universos, como o do brasileiro e de países como os EUA, cujo consumo de malbecs argentinos cresce vertiginosamente, como mostra o documentário Boom varietal: the rise of Argentine Malbec – filme premiado no 20º Oenovideo, um Festival Internacional de Filmes sobre Vinhos, sobre o qual recentemente escrevi matéria para a Revista Adega.  A malbec foi uma benção na vitivinicultura argentina, pois além de oferecer vinhos vigorosos, com um estilo que agrada o consumidor contemporâneo – pela cor, corpo e aromas generosos –, combina com sua gastronomia e tem como pátria amada unicamente este país, já que, em outros, como na terra natal francesa, ela aparece em segundo plano.

PRATELEIRA MALBECS1

Visitando Buenos Aires neste mês de julho, percebe-se que o lugar do malbec já não é absoluto, embora predominante. Os produtores exploram outras varietais e buscam trabalhar com vinhos de corte, sobretudo das mais nobres castas francesas (cabernet sauvignon, syrah, merlot, chardonnay). Há muitas lojas especializadas para atender uma cidade de turismo intenso em grande parte do ano, visitada por muitos brasileiros  interessados em explorar a adega argentina, bem como seus bifes de chorizo, asados, costillas, bifes anchos e empanadas. Segundo funcionário de uma das redes de tiendas de vinos da capital, a Vinoteca Ligier, os brasileiros saem de lá com caixas de vinhos que nada têm a ver com os campeões de custo-benefício das nossas prateleiras, mas que custam acima de 500 pesos (cerca de 200 reais) a garrafa.

Don Julio – um dos restaurantes especializados em carnes na capital portenha
Don Julio – um dos restaurantes especializados em carnes na capital portenha

A rede Ligier já está estabelecida há mais de 30 anos no mercado argentino e conta com 11 lojas em Buenos Aires e uma em Rosário. Normalmente apresentam a mesma gama de vinhos em todas as lojas, com algumas pequenas variações quanto à oferta de produtos de acordo com a clientela dominante na região. Segundo funcionário da Calle M.T. Alvear, que recebe um público de alto poder aquisitivo e mais especializado, eles primam pela oferta de vinhos argentinos de safras antigas e especiais, que ficam acondicionados numa sala escura, com ambientação climatizada. De modo geral, as seleções da Ligier são muito focadas em vinhos tintos, ficando uma porcentagem mínima para brancos e rosés. Trabalham com um foco no que vende e estão localizados em áreas bem estratégicas.

Ambientação climatizada para vinhos de guarda de uma das lojas Ligier
Ambientação climatizada para vinhos de guarda de uma das lojas Ligier

Mas esta é apenas uma das cadeias de lojas de vinhos em Buenos Aires que se distribuem nas agitadas ruas da cidade. A Winery é outra cadeia do varejo de vinhos que visitei.  A loja da Av. Corrientes n. 11 tem estilo um pouco distinto das tradicionais lojas de vinho, misturando uma ambientação requintada a uma atmosfera jovial, com música eletrônica, uma área para cervejas importadas, e abordagens setorizadas para vinhos tintos, brancos, rosés, espumantes e garrafas de 375 ml. Um quadro negro ranqueia vinhos de qualidade destacada selecionados por sua equipe e há sempre um vinho à disposição para degustação – neste dia era um Catena Saint Felicien Malbec 2010.

Ranking de vinhos da Winery
Ranking de vinhos da Winery

A seleção de vinhos é equivalente às outras e os preços me pareceram bem competitivos. No entanto, dada a elasticidade das conversões de câmbios praticados na cidade, esse valor pode ser ampliado e o que parecia vantajoso em uma loja deixa de ser. Isto é, em Buenos Aires hoje correm três moedas cotidianamente: o peso argentino, o dólar e o real, com taxas de conversão variáveis. É bizarro, inacreditável! Seja em lojas renomadas, como as redes do varejo do vinho, seja nas feiras e camelôs, as pessoas recebem as três moedas e te retornam em peso. Assim, às vezes, trocar dinheiro ali é mais vantajoso do que em casas de câmbio ou em bancos do Brasil.

WINERY1

Um exemplo claro disso está nessas cadeias de vinho: enquanto algumas trocavam o seu dólar por 8 pesos argentinos, outras pagavam o câmbio oficial, cerca de 5,4 pesos na época. Dependendo do valor da garrafa, isso pode fazer grande diferença. Então, este é um dado importante na hora de calcular o preço de um mesmo produto. De modo geral, há uma prática de valores similares dos vinhos e a diferença será tirada pelo câmbio ou ainda por promoções.

vinhos mais selecionados comercializados no supermercado Carrefour
Vinhos mais selecionados comercializados no supermercado Carrefour

A Vinoteca Frappé, que conta com 13 filiais, 11 em Buenos Aires, trabalha com algumas promoções em que você compra três garrafas de um mesmo vinho e ganha a quarta. Visitei a loja da Calle n. 1380, em Recoleta, que é bem pequena, difícil de se ter mobilidade e, infelizmente, recebi um péssimo tratamento de argentinos apressados e mal-humorados. O câmbio aceito para reais e dólares é o oficial. Outra rede já sediada há 30 anos na cidade chama-se “Tonel Privado”, contando com 12 lojas no total. Visual tradicional com bom atendimento e preços nivelados com o mercado, mas com câmbio mais atraente do que o oficial.

Ranking de tintos e brancos da Tonel Privado
Ranking de tintos e brancos da Tonel Privado

De modo geral, a distribuição dos rótulos argentinos é semelhante no varejo portenho. Todas as marcas mais conhecidas estão em todas as lojas. Para quem gosta de garimpar novidades, peças raras, provavelmente, visitas às regiões vitivinícolas sejam mais proveitosas, principalmente em se tratando de regiões que se destacam mais recentemente, como Salta, extremo norte do país. Esta é a informação que recebi do proprietário da La Botica de Vinos, uma loja mais personalizada, situada na agitada e turística Rua Florida, mas pouco visível por estar no interior de uma galeria.

BOTICA1

A loja é inspirada no imaginário do vinho, com citações literárias, revistas especializadas, peças que remetem à sua produção e consumo e o dono é um agrônomo, apaixonado pelo vinho.  Sua preferência é pelos vinhos de Salta, pois considera o clima (verões longos e secos), a grande amplitude térmica e a topografia (vinhas plantadas entre 1500 m e 2500 m de altitude) interessantes para a produção de vinhos concentrados em aromas e sabores. Além disso, predominam produções de baixa quantidade, pela própria dificuldade de aumentar a superfície de produção. O proprietário acrescenta que a lei do mercado é dominante e ele se vê obrigado a trabalhar com produtos de maior rotatividade, nem sempre os que ele considera os melhores. Bem, não precisa nem dizer que a orientação de um amante de vinhos é sempre mais rica e franca, por isso vale uma visita à Botica del Vino. Ademais, o câmbio praticado ali era de 8 pesos para cada dólar e 3 pesos para cada real.

Os Mandamentos do Vinho exibidos na Botica del Vino
Os Mandamentos do Vinho exibidos na Botica del Vino

Resolvi fazer uma enquete com os vendedores das lojas visitadas sobre quais os três melhores produtores argentinos em suas opiniões e pedir que me sugerissem um vinho de destaque mais recente para indicar aos brasileiros. Dentre os três melhores, unanimidade para os vinhos da Catena Zapata, do Luigi Bosca e da Rutini. A Viña Cobos, com vinhedos em Mendoza, apareceu mais de uma vez, bem como as produções das bodegas de boutique do Michel Rolland na Argentina:  Val de Flores e Mariflor no Valle de Uco e San Pedro de Yacochuya, da parceria com a Bodega Etchart, em Cafayate, Salta.

CATENA1

Em termos de novidades mais expressivas, foram citados:

1)      os vinhos da Vinícola Bressia, produção própria do já reconhecido enólogo Walter Bressia em Luján de Cuyo, região de Mendoza: o assemblage Profundo e os varietais Monteagrelo;

2)      os vinhos da linha RamaNegra, da Casarena, um projeto robusto de revitalização produtiva de uma bodega em Mendoza.

3)      o Padrillos Malbec 2011, feito por Ernesto Catena, primogênito do ícone Nicolas Zapata, também em Luján de Cuyo.

BRESSIA

Vinhos brancos ainda recebem um lugar secundário nas prateleiras argentinas, menor do que o dos espumantes, o que pode decorrer em parte pelo período de inverno. O vinho rosé começa a aparecer mais, acompanhando tendências contemporâneas no mundo todo. Vinhos importados são raros. Os Freeshops dos aeroportos de Buenos Aires têm preços atraentes, mas com menos rótulos. Os supermercados têm também muitos produtos e aí a recomendação é sempre observar as condições de armazenamento. Para quem gosta de brancos e dos Torrontés argentinos, como eu, três boas indicações: o Coquena Torrontés, da San Pedro de Yacochuya, o Colomé Torrontés e o Etchart Cafayate Torrontés Reserve. Todos da região de Cafayate, na Província de Salta.

COLOME

Para encerrar, alguns comentários acerca de dois vinhos degustados, deixando bem claro que gosto é algo bastante subjetivo.

Torrontés Coquena 2011: Delicioso, muito aromático – flores brancas, abacaxi e marmelo – seco, cítrico e com certa untuosidade em boca. Ótimo para acompanhar peixes com molhos de toques cítricos e amanteigados, como um linguado à belle meunière ou uma truta com amêndoas.

Fond de Cave 2001 Cabernet Sauvignon: esperar o momento certo de pegar o vinho desenvolvido é o melhor, mesmo que em outros momentos tenham algo interessante a oferecer. Este vinho está no extremo de sua maturidade, com os taninos totalmente suavizados e os aromas fundindo frutas pretas e toques de tabaco, trufas e champignons. É um vinho que parece beneficiado pela maturidade, ainda que em troca de um pouco de sua vivacidade. Vai bem com uma empanada Criolla!

EMPANADAS1

Sobre Autora: Míriam Aguiar é pesquisadora do mercado de vinhos, com Doutorado na USP e Pós-doutorado na UMR Innovation Montpellier, autora de livro e artigos sobre o tema
Sobre Autora: Míriam Aguiar é pesquisadora do mercado de vinhos, com Doutorado na USP e Pós-doutorado na UMR Innovation Montpellier, autora de livro e artigos sobre o tema
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3 thoughts on “Blog do Jeriel ganha mais uma coluna: Wine-Bag: vinho + viagens + diversidade”

  1. Coluna Fantástica Dra. Míriam.
    Virei fã!
    Estarei indo a Mendoza em agosto, onde terei a oportunidade de provar belíssimos vinhos a um preço justo.
    Existe algum(ns) vinho(s) que você classifique como imperdível?

    1. Caro Leonardo,

      Agradeço os elogios e espero sempre poder contribuir com conhecimentos a respeito do apaixonante mundo dos vinhos. Quanto as dicas, como apontei no texto, três produtores argentinos são legendários, porque apresentam uma produção de qualidade com muita regularidade : Nicolas Catena, Rutini e Luigi Bosca. Eu, pessoalmente, ando um pouco « enjoada » de vinhos muito no estilão que se consagrou como do Novo Mundo : vinhos muito ostensivos em aromas, cores, carvalho marcado e teor alcoólico alto. Infelizmente, não é difícil encontra-los na Argentina, mas tudo vai depender do equilíbrio alcançado pelo produtor. Mas gosto tem sua dimensão pessoal e modifica ao longo do tempo, então, respeite o seu. Já que vai a Mendoza, paraíso das produções argentinas, eu não hesitaria em alugar um carro e tentar fazer um roteiro de boas vinícolas, restaurantes, wine-bars, para curtir e descobrir as pérolas que merecerão lugar na mala. Afinal, existem novidades e variações entre safras. Voltando ao meu gosto, eu tendo a preferir entre os três acima os vinhos da Rutini, embora reconheça a qualidade dos demais. Neste final de semana, por exemplo, abri um Merlot Rutini 2009 que estava muito bom, um vinho de estrutura, intenso, rico aromática e gustativamente, mas elegante, sem excessos, equilibrado – de quem saber fazer vinho. Apesar de poder ir mais longe na idade, seus taninos já estavam bem domados e tomar o vinho me deu muito prazer. Mas este não é um vinho muito caro, existem outros “mais especiais” na própria Bodega. Vale também checar as novidades da Patagônia e não deixe de anotar preços do freeshop, caso passe na ida e na volta, para comparar e escolher o local da compra. E no mais, aproveite! Abraços, Miriam

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