Grecia - Mikonos

Por Jezebel Salem

A Grécia, com suas ilhas iluminadas, recortadas em deslumbrante mar azul, reino de ancestral beleza, além de legar os fundamentos do pensamento e da cultura ocidental, também foi o berço da vitivinicultura, quase como a conhecemos hoje, muito antes que os antigos romanos se apropriassem do assunto.

Por todo seu continente e ilhas, atualmente, são cultivadas cerca de 250 variedades de uvas, muitas das quais autóctones, espécies únicas, produzindo vinhos de excelente qualidade, fascinantes em suas características e personalidade ímpar. Paralelamente, a vinicultura grega também evoluiu e modernizou-se, adaptando as bagas originais e tradição milenar ao gosto e tecnologias modernas. O grande atrativo encontre-se de fato em suas uvas autóctones, capazes de conferir uma tipicidade única ao vinho grego, sendo a Agiorgitiko, Xynomavro, Mosxomavro,  Athiri,  Mavroudi, alguns dos seus mais expressivos exemplos. Quanto às castas brancas, igualmente surpreendentes, basta citar a Assyrtiko, da ilha de Santorini, cultivada em solo vulcânico, que por si só, faz de cada gole de seu personalíssimo vinho, uma experiência sem paralelo.Grecia - mar e rochedos

Com todos esses atributos, no entanto, quantos vinhos gregos, aqui no Brasil, você tem experimentado? São ainda pouco conhecidos e, mesmo com o aval da crítica especializada internacional, vinhos gregos costumam ser incluídos no rol dos ‘exotismos’ – talvez porque em decorrência de suas características geográficas e de clima, os produtores trabalharem com pequenos índices de produção, priorizando o diferencial e a qualidade do que a produção em larga escala.

Além do que, um dos propósitos deste artigo é mostrar que vinho grego pode ir muito além do típico e conhecido “retsina”, vinho branco processado com adição de resina de pinheiro durante a fermentação. Muito consumido no verão pelos gregos, é suave, refrescante, apesar da graduação alcoólica, de sabor “além-vinho”, em razão da resina de pinheiro. Mas a Grécia atual denota talento e tecnologia para processar vinhos de alto padrão internacional e competitivos com os bons vinhos contemporâneos. Porém, com atrativos adicionais: suas uvas extraordinárias, o terroir variado e mais aquela aura mitológica, filosófica e civilizadora –  simbologias com as quais poucos podem se emparelhar…Grecia - Isole Ionie

A descoberta dos vinhos gregos

Para preencher a lacuna desse desconhecimento, um exemplar da melhor estirpe, algumas vinícola grega Tsantalis entrou em cena no mercado brasileiro, com representação e distribuição exclusiva da  importadora Free Way.

A marca foi fundada por Evangelous Tsántalis, há mais de 123 anos, e tem sido um dos principais promotoras na modernização da vitivinicultura da Grécia. Possui vinhedos por quase todos os terroirs gregos, da Macedônia à Rapsani, passando  pelas ilhas, como também nas cercanias do Monte Olympos (aquele mesmo, onde habitavam os deuses), mais a região do Peloponeso e o Monte Athos, montanha sagrada onde se concentram os mosteiros ortodoxos, produtores dos famosos Vinhos Tintos Licorosos doces (como os premiados Tsántali Mavrodáphne of Petras e o Cellar Reserve of Petras). E por falar em vinhos licorosos, de uvas que só os deuses gregos seriam capazes de fazer crescer ali, quero dizer, perfeitas para esse tipo de vinho (e fazendo jus ao nome “vinho-santo”), a TSÁNTALI tem sido a fornecedora oficial do governo da Rússia, dos excelentes vinhos produzidos pelos monges ortodoxos do Mosteiro de São Pantelemon, no Monte Athos.

Grecia - Santorini - por do sol

O catálogo da TSÁNTALI exibe boa variedade dos vinhos regionais gregos, ultrapassando os 60 rótulos.  Nós, do Blog do Jeriel, fomos convidados a provar um trio representativo desses vinhos. E ficamos seduzidos pelos três: Tsántali Assyrtikó Santorini – safra 2011;  Kanenas Red – safra 2008; St. Nicolas – Mosteiro de Chrometisa – Monte Santo – safra 2008.

Este escriba, Jezebel e Alain Uzan
Este escriba, Jezebel e Alain Uzan

Com aval de chef de cuisine da França

Pensar em acompanhar tais vinhos com pratos da cozinha grega seria o óbvio – nada contra a maravilhosa culinária mediterrânea, muito pelo contrário. Mas como os vinhos em questão, além da peculiaridade, também são de agrado internacional, pensamos no desafio da cozinha francesa, exatamente para provar sua versatilidade. Escolhemos assim, mais uma vez, a culinária inspirada do chef Alain Uzan  (com sua sempre esfuziante disposição e acolhimento caloroso), que naquela semana, além de tudo, tinha virado astro de cinema internacional, com o filme “Por que Você Partiu?”, entrando em cartaz no Rio e São Paulo.

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E lá rumamos, nós, para o restaurante “Avek”, aparecendo assim de surpresa, sem aviso. As três garrafas foram devidamente abertas e naturalmente convidamos o Alain para conhecer os vinhos. Estávamos já a escolher o que jantar no menu da casa, quando fomos surpreendidos pelo chef, que ‘raptando’ suas três taças, se embrenhou na cozinha, recomendando que aguardássemos pelo jantar – com pratos que seriam criados naquele momento especialmente para aqueles vinhos.

Assyrtiko branco harmonizou com uma das especialidades do Chel: Ostras
Assyrtiko branco harmonizou com uma das especialidades do Chel: Ostras

Entrada para os mistérios da inefável Assyrtikó

As famosas Ostras gratinadas à moda de Nantes, receita célebre do Alain, combinaram a perfeição com as nuances marcantes do vinho branco Tsántali Assyrtikó Santorini (2011). Como foi dito, esta é uma das cepas mais apreciadas da Grécia. Realmente, desde o início o vinho chama a atenção pela originalidade; não muito potente em aromas, porém na boca, supera expectativas, pelo sabor sóbrio, seco, equilibrado, mas de intensa mineralidade. Simplesmente, delicioso!

Provavelmente pelo terreno vulcânico da linda Ilha de Santorini, onde são cultivadas as seculares uvas Assyrtikó, e pela proximidade do Mar Egeu, seu vinho alcança uma expressão muito particular, e merece todos os prêmios internacionais conquistados por este Tsántali Assyrtikó Santorini (incluindo os recentes elogios do todo-poderoso Robert Parker). Tal vinho deve ficar muito bem acompanhado também por peixes grelhados, queijos leves, frutas, aves e saladas, massas de molho delicado, além de acompanhar aperitivos variados, ou como uma entrada memorável!…  O preço junto ao importador = R$ 79,90. Este vinho pode resistir a guarda por cerca de 5 anos.  

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Muita personalidade no Kanenas Red

O Kanenas degustado era da safra de 2008, de taninos relativamente amaciados, pois deixaram transparecer toda a expressão deste vinho produzido em Ísmaro, na Trácia, norte da Grécia, em solo argiloso e de xistos.

Um corte de 50% de uvas Syrah e 50% da uva autóctone Mavroudi garante ao Kanenas Red uma firme estrutura, bem como aromas de frutas vermelhas maduras, com leves mas estimulantes toques de pimenta. Intenso já na primeira sensação na boca, destaca-se pela sensualidade, mas necessita de certo tempo no copo para soltar seus sabores. Um vinho ao estilo mediterrâneo e que sabe portar com desenvoltura a tipicidade de sua terra. Este vinho passa 6 meses de maturação em barril de carvalho francês e o tempo de guarda é superior a 8 anos. Preço do importador: R$ 47,50.

Para o Kanenas Red, nosso chef desenvolveu uma receita com Raviólis ao recheio de queijo brie, com um molho atrevido, no qual combinava vários tipos de cogumelos, arrematado por lascas de queijo de cabra – segundo Alain, o vinho era suficientemente potente, exigindo a ‘picância’ de um queijo mais marcante, além do brie.

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Prodígios da vinicultura monástica – Mosteiro de Chromitsa, Monte Athos

Chegou enfim o terceiro grego da noite, St. Nicolas – Mosteiro de Chromitsa – 2008, o mais clássico da seleção, no sentido de avizinhar aos bons Bordeaux. Vinho multipremiado, elaborado com a uva típica Limnio e com Cabernet Sauvignon, revela maturidade, maciez, além de abrir o leque típico da Cabernet, no aroma herbáceo, com especiarias e longo final amadeirado. Preço: R$ 81,00. Denota bom potencial de guarda

Para o  chef da nossa particular degustação, este foi o vinho que mais lhe agradou, assim criando um prato que permitiu ainda mais extensos enternecimentos com sua prova: Entrecôt ao Molho do Chef com batatas à Asterix. O molho da tenra e suculenta carne é de receita secreta, avisou Alain, mas notou-se perfume do estragon, tomilho e mostarda de Dijon. Seja como for, harmonizou muito bem com o vinho, que aos poucos revela ainda mais elegância e vai aveludando-se a cada gole.  

 Serviço:  Free Way Importação  (http://www.freewayecommerce.com.br/)      

Jezebel Salem, jornalista por profissão que já atuou em áreas diversificadas, como cultura e economia, mas que logo se especializou no hoje chamado jornalismo gastronômico. Foi repórter e redatora em vários canais da imprensa, como os jornais O Estado de São Paulo, Gazeta Mercantil, Shopping News, Jornal da Tarde, entre outros, inscrevendo-se entre os pioneiros dessa especialidade que ao longo dos últimos 25 anos, tanto espaço e entusiastas conseguiria conquistar. Participou das primeiras edições da revista Gula (surgida no início dos anos 90) e assinou artigos em várias publicações do gênero.
Jezebel Salem, jornalista por profissão que já atuou em áreas diversificadas, como cultura e economia, mas que logo se especializou no hoje chamado jornalismo gastronômico. Foi repórter e redatora em vários canais da imprensa, como os jornais O Estado de São Paulo, Gazeta Mercantil, Shopping News, Jornal da Tarde, entre outros, inscrevendo-se entre os pioneiros dessa especialidade que ao longo dos últimos 25 anos, tanto espaço e entusiastas conseguiria conquistar. Participou das primeiras edições da revista Gula (surgida no início dos anos 90) e assinou artigos em várias publicações do gênero.

 

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