Por Míriam Aguiar

Caros leitores e amantes do vinho, aproveito o espaço da minha coluna no Blog do Jeriel para compartilhar um novo projeto, recém-inaugurado, no qual estou engajadíssima. Espero que gostem da proposta e levem ao conhecimento de outras pessoas e, se possível, pratiquem e disseminem a ideia de descoberta de um lugar mais genuinamente brasileiro para o consumo de vinhos. Segue algumas linhas sobre a ideia e resultados da primeira edição.

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O projeto O VINHO EM NOSSA MESA tem o propósito de integrar o vinho à cultura brasileira. Quase todos os livros de harmonização falam do encontro entre vinhos e a gastronomia internacional. É normal, este caminho já foi trilhado, assim como recomendamos caipirinha com feijoada. Mas pouco se sabe e se fala de fato do encontro entre o que comemos no dia-a-dia e o vinho. O objetivo do projeto é, então, revelar as nuances desse encontro entre diferentes tipos de vinhos e pratos brasileiros.

Para tal, reuniremos especialistas e leigos que, juntos, irão experimentar o casamento entre diferentes vinhos e pratos brasileiros. A cada encontro um prato e vários vinhos propostos pelos convidados para dar conta dessa harmonização. A palavra de ordem é integração. Por isso, teremos especialistas e leigos, pois se os primeiros já dominam melhor as técnicas, os outros podem dizer de um gosto que corresponde ao de muitos brasileiros. E não é necessário ser especialista para ter um paladar aguçado.

O encontro tem um espírito agregador, de união, discussão e descontração. Não há competição entre vinhos no sentido hierárquico de qualidade. Falo de qualidade num sentido de diversidade: quais  são as características dos vinhos que mais se harmonizam com as qualidades daquele prato.

Convidei o especialista Márcio de Oliveira, com todo seu conhecimento, respeito pelo vinho e know-how de degustaç?es para me ajudar a concretizar esse intuito.  Após os encontros, divulgaremos os resultados no meu blog, no Newsletter Vinoticias e em outras mídias, como o Blog do Jeriel, que abraçarem a ideia, repercutindo este conteúdo para mais brasileiros. Para evitar pré-julgamentos, os vinhos serão sempre degustados às cegas e, só ao final, terão seus rótulos revelados. Não há delimitações prévias de preços, pois não é isso que funda a combinação de um vinho com um prato. Leia a proposta integral  do projeto na Coluna Sobre Vinhos do Blog Os vinhos que a gente bebe.

 

PRIMEIRA EDIÇÃO

A estreia de O VINHO EM NOSSA MESA se deu no ultimo dia 09 DE MARÇO, quando reunimos 12 pessoas para apreciar uma deliciosa moqueca baiana no Bar e Restaurante Baiana do Acarajé, na Savassi, em Belo Horizonte. Um lugar descontraído, frequentado por um público diversificado e famoso pela especialidade na comida baiana, servida por garçonetes com trajes típicos.

Local

O resultado foi simplesmente extraordinário: amantes dos vinhos, leigos e especialistas que, no mercado, poderiam ser concorrentes, se sentaram à mesa para, com todo cuidado, atenção e respeito ao projeto dar esse passo de saudação ao casamento entre a comida brasileira e os vinhos, sem apego a rótulos, sem se preocupar em avaliar qual era o melhor produto. De forma espontânea, vivenciamos a experiência e compartilhamos as impressões aqui publicadas – tudo em prol dos VINHOS EM NOSSA MESA!

Brinde

EIS OS RESULTADOS!

Como as avaliações foram às cegas, os rótulos só foram revelados ao final. Normalmente, era de se esperar a presença de muitos brancos em função da clássica regra : peixes com vinhos brancos.  Mas, supreendentemente, o branco não foi unanimidade : dividiu com o rosé a mesma quantidade e, além deste, tivemos a presença inusitada de 02 vinhos tintos. Gostei disso, pois mostra certo desprendimento das regras e o aceite à proposta de experimentação do projeto. Por outro lado, esse dado reafirma a incorporação cada vez mais expressiva dos vinhos rosés na adega não apenas dos brasileiros, mas de modo global.

cegas

Tivemos, então, 4 vinhos brancos, 4 vinhos rosés e 2 vinhos tintos, gentilmente levados pelos participantes ou oferecidos por importadores como um palpite de harmonização. Assim que começamos, pedi aos que levaram os vinhos que me indicassem o motivo pelo qual haviam escolhido aquele tipo de vinho. De modo geral, buscou-se encontrar vinhos de médio corpo, que tivessem acidez suficiente para ajustar a untuosidade do prato, tendo em vista que era uma moqueca não só de peixe, mas também com camarões, leite de coco e à base azeite de dendê.  Esses ingredientes e os temperos do prato foram outros quesitos levados em consideração, que poderiam ter como companhia vinhos nivelados, aromaticamente.

Acaraje

Além disso, um dos presentes se inspirou na sopa de peixe francesa para escolher, analogamente, o vinho. Outro procurou testar harmonizações já vivenciadas, como com vinhos da uva Pinotage. Outro simplesmente quis ver como um tinto (em tese, incompatível) poderia se portar ao lado da moqueca. Enquanto esperávamos o prato a ser avaliado, entramos no clima com o delicioso acarajé da Baiana do Acarajé, acompanhado por um vinho rosé. Chegando os pratos, passamos aos trabalhos!!!

Moqueca Compelta

A ordem da degustação foi aleatória e os vinhos foram numerados de acordo com a sequência em que foram apresentados, para posterior identificação. Todos tiveram uma ficha técnica para registro dos comentários da cada vinho. Ao final, pedimos que cada degustador citasse quais as três melhores harmonizações.

O sexto vinho servido, um português do Alentejo, Esporão Reserva Branco 2012, obteve unanimidade dos votos. Em seguida, com 5 votos,  foi escolhido o Rosé de Marsannay Domaine Clair-Dau Louis Jadot 2009, da Borgonha e, com 3 votos, o neozelandês Trinity Hill Gimblett Gravels Chardonnay 2006.

ESPORAO1

Mas o páreo foi duro, pois apenas um dos vinhos não recebeu voto. Os brancos, em média, se saíram bem com a moqueca, exceto quando não tinham estrutura suficiente para acompanhar o calor e corpo da especialidade baiana, ficando encobertos pelo prato. Os rosés, pelo contrário,  acompanharam a estrutura da moqueca, mas, em função de suas paletas aromáticas e gustativas diversificadas, alguns tendendo mais para groselha, framboesa, outros de sabor mais exótico, nem sempre encontraram um ponto de equilíbrio com o prato. O que mais encontrou tem forte personalidade: com 100% de pinot noir se impôs frente a moqueca, sem destruí-la. Os tintos, para surpresa, obtiveram alguns votos, mas, no geral, continuam pertencendo  à especialidade menos indicada para a harmonização com a moqueca.

Todos os Vinhos

Quanto ao campeão por unanimidade, qual é o seu segredo? Os registros das justificativas mostram que este branco português tem untuosidade e acidez suficientes para acompanhar o caprichoso azeite de dendê e, ao mesmo tempo, consegue ajustar as papilas, limpar a boca e ajuda a construir o sabor do prato. Sendo assim, ele cumpre o que se recomenda numa harmonização : acompanhar a estrutura do prato, sem encobrir as suas características ou ser ofuscado por elas e, na medida do possível, valorizar ainda mais o seu sabor, tornando a experiência de comer e beber ainda mais deliciosa.

Seguem breves comentários sobre as interações de todos os vinhos :

 

Esporao Campeao

Esporão Reserva Branco 2012 – Qualimpor

Harmonização perfeita! Bom equilíbrio entre untuosidade e acidez se integram perfeitamente ao prato e seus toques organolépticos valorizam os da moqueca.

                                                                                             Marsannay

Rosé de Marsannay Domaine Clair-Dau Louis Jadot 2009 – Mistral

Segundo colocado: um rosé bourguignon cor salmão, 100% pinot noir, que combina delicadeza com personalidade,  consegue limpar a untuosidade e se manter, sem apagar o prato.

 

Trinity

Trinity Hill Gimblett Gravels Chardonnay 2006 – Premium Wines     

Terceiro colocado: um chardonnay generoso, que apresenta cremosidade e notas defumadas de sua integração com o carvalho, acompanhando a untuosidade e condimentacao do prato.

 

Sovente

Sovente Toscano de Fattoria Poggio Capponi 2011 – Prosecco Express

Chardonnay toscano, delicado e vegetal, fica ofuscado pela moqueca.

 Tavel

Tavel Les Acanthes 2011 – V&A Adegas e Vinhos   

Os taninos do marcante rosé do Rhône brigam um pouco com o prato e o vinho vai bem, mas impõe o seu sabor, ultrapassando o ponto de harmonia.

 Sauvignon Livio

Livio Felluga Sauvignon 2009 – Mistral                    

Aromático, elegante, sua untuosidade fica no limite do ajuste, podendo não se sustentar por muito tempo diante do prato.

 Rose Roqueta

Ramón Roqueta Cabernet Sauvignon Rosado 2009 – Decanter

O rosado espanhol desaparece e metaliza um pouco quando em contato com a moqueca.

 Rose Castillo

Campo Castillo Rose de Garnacha 2012 – Casa Rio Verde      

Outro rosado espanhol, acompanha a estrutura do prato, mas sua forte evidência de frutas vermelhas vai em outra direção organoléptica.

 Pinotage

Barista Pinotage 2011 – Mistral

Este tinto da África do Sul consegue dialogar com a moqueca, mas tende a acentuar a percepção de seus condimentos.

 

Marin

Casa Marín Lo Abarca Hills Vineyard Pinot Noir 2007 – Vinea

Um pinot noir chileno marcante, que impõe seus toques terrosos e tostados diante do prato, anulando o sabor da moqueca.

Bem, não é preciso nem dizer que todos capricharam no envio de ótimos vinhos. Se parte deles não encontraram na moqueca seu melhor par, certamente terão outros parceiros. Afinal, a minha sugestão é de que, com tanta diversidade, sempre haverá um vinho para cada prato e vice-versa. A sensação ao final do encontro foi muito gratificante. Não tivemos ali apenas um encontro entre vinhos e comida, mas uma verdadeira harmonia de sentidos entre os participantes, totalmente integrados ao local e convencidos de que é possível ter o vinho à mesa brasileira.

 

Sobre Autora: Míriam Aguiar é pesquisadora do mercado de vinhos, com Doutorado na USP e Pós-doutorado na UMR Innovation Montpellier, autora de livro e artigos sobre o tema e editora do Blog "Os vinhos que a gente bebe"
Sobre Autora: Míriam Aguiar é pesquisadora do mercado de vinhos, com Doutorado na USP e Pós-doutorado na UMR Innovation Montpellier, autora de livro e artigos sobre o tema e editora do Blog “Os vinhos que a gente bebe”
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