Grande degustação de vinhos alentejanos em SP 2018 –

A Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA), promoveu no último dia 15.10.2018, degustação comentada denominada “Alentejo: O Clássico e o Moderno”, realizada em paralelo à Prova Anual dos Vinhos do Alentejo em SÃO PAULO – 2018. Na região alentejana a diversidade impera. Lado a lado caminham vinhos clássicos, produzidos quase sem nenhuma tecnologia, com outros feitos em adegas super modernas com tudo que há de mais atual na enologia contemporânea. Essa diversidade pôde ser conhecida nesta prova comentada, coordenada com muita propriedade pelo jornalista Alexandre Lalas. Pela CVRA, esteve presente Maria Amélia Vaz da Silva – Diretora de Marketing.

O Alentejo em poucas linhas –

Dentre as principais regiões vinícolas portuguesas, entres as quais Dão, Douro, Bairrada, etc., o Alentejo merece destaque especial, eis que se trata de uma região muito árida e que, até poucos anos, tinha pouca expressão em termos de vinicultura e hoje está a se modernizar e produzir vinhos surpreendentemente bons a preços acessíveis. Lá, uma das principais castas é a Aragonez (Tinta Roriz no Douro e Tempranillo na Espanha). Mas há também outras castas como a Alicante Bouschet, Alfrocheiro, Trincadeira entre outras castas tintas e brancas importantes. Fonte: Coleção Cozinha País a País – Vinhos – Folha de S. Paulo – 2006

Maria Amélia, Diretora de Marketing da CVRA e Nuno Vaz Pires – Essência do Vinho

Neste ano participaram as seguintes vinícolas: Adega de Borba, Adega de Redondo, Cartuxa – Fundação Eugênio de Almeida, Casa Agrícola HMR, Cavedor, Casa Relvas, Comenda Grande, Cortes de Cima, Dona Maria, Júlio Bastos, Esporão, Herdade da Malhadinha Nova, Herdade dos Cotéis, João Portugal Ramos, José Maria da Fonseca, Monte da Capela, Ségur Estates, Sogrape Vinhos, Tapada do Fidalgo, Torre de Palma e Vinhos Folhas do Meio. A seguir as descrições e avaliações dos vinhos degustados sob a batuta de Alexandre Lalas:

Dona Maria Rosé DOC Alentejo 2017 – Blogdojeriel.jpg

Dona Maria Rosé DOC Alentejo 2017 – Álcool: 12,5% – Variedades: Aragonês e Touriga Nacional – Importador: P.P. S. – delicioso rosé alentejano no qual os elementos álcool, fruta e acidez estão em plena sintonia. Equilíbrio gustativo e pegada alentejana são suas maiores virtudes deste rosé de que também chamou atenção por sua cor salmão alaranjado, sólida estrutura calcada na fruta. Acídulo, refrescante, muito vivaz, é um verdadeiro “coringa” nas harmonizações. Perfil que oscila entre o moderno e o clássico. Avaliação: 89/100 pts.

Porta da Ravessa Reserva 2015 – Blogdojeriel.jpg

Porta da Ravessa Reserva 2015 – álcool: 14% – região: Alentejo – variedades: Trincadeira, Aragonez, Alicante Bouschet e Cabernet Sauvignon – preço médio: R$ 75,00 – importador: Barrinhas – O mosto estagiou por 6 meses em barricas de carvalho francês. Análise organoléptica:  cor intensa, brilhante com alguma profundidade. Nos aromas geleia de frutas negras secundadas por especiarias. No paladar taninos com alguma adstringência, ótima acidez conferindo equilíbrio ao conjunto, álcool sobrando e madeira presente sem incomodar. De boa persistência, seu final é marcado pelas especiarias e taninos. Vinho de nítido perfil tradicional, que tem a possibilidade de arredondar na garrafa. Avaliação: 87/100 pts.+

Art.Terra Amphora VRA 2017 – Blogdojeriel.jpg

Art.Terra Amphora VRA 2017 Herdade de São Miguel – Álcool: 13,5% – Variedades: Moreto, Aragonês e Trincadeira – Art. Terra Amphora Herdade de São Miguel VRA 2016 – Álcool: 13,5% – Variedades: Moreto, Trincadeira e Aragonez – Importador: Cantu – Preço médio: R$ 180 – este tinto foi uma agradável surpresa da degustação. Produzido de uvas plantadas em xolos de xistoso, fermentado em ânforas de barro, exibiu cor violáceo púrpura com alguma profundidade, apresentou aromas complexos com sugestões de frutas vermelhas e especiarias em profusão. No paladar verificamos a confirmação das sensações olfativas. Taninos macios de excelente textura resultando num tinto expressivo, potente, acídulo, conformando um perfil tipicamente alentejano tendo no equilíbrio um de seus destaques. Extremamente fresco, expansivo, profundo, sem arestas e de grande personalidade que se apresenta aos poucos na taça. Enfim, um tinto de perfil moderno, verdadeiramente diferenciado – a passagem por ânforas de barro fez e a faz a diferença para que este “Amphora” tenha lugar garantido nas melhores adegas! Avaliação: 92/100 pts.

Adega de Borba DOC Reserva 2013 – Blogdojeriel.jpg

Adega Cooperativa Borba Reserva DOC Alentejo 2013 – Álcool: 13,5% – Variedades: Aragonez, Trincadeira e Alicante Bouschet – Importador: Adega Alentejana – Preço médio: R$ 190 – vinho amadurecido em madeira de carvalho francês, tonéis de madeira exótica e mais tarde na própria garrafa. Análise organoléptica: vermelho-rubi intenso, aromas ricos e cheios de fruta passa e em compota, caramelo e vegetal. Os aromas, complexos, vão se revezando na taça. Paladar no mesmo diapasão, macio, com discretíssima adstringência, equilibrado, de taninos que conferem uma verdadeira coluna vertebral ao vinho, encorpado onde se nota o caráter frutado mesmo após cinco anos e com alguma evolução que se nota ao final de prova. Degustado pela terceira vez demonstrou grande consistência e aptidão para envelhecer na garrafa sem dar sinais de cansaço. Excelente tipicidade num tinto de nítido perfil clássico. Avaliação: 90/100 pts.++

Este consistente blend alentejano teve desempenho excepcional na degustação – Blogdojeriel.jpg

Cortes de Cima 2013 – Variedades: Aragonez, Syrah, Touriga Nacional e Petit Verdot – Álcool: 14% – Região: Vidigueira/Alentejo – Importador: Adega Alentejana – Preço médio: R$ 160 – Mais um vinho que surpreendeu na degustação. Na taça vermelho-rubi com reflexo intenso. Aromas complexos com muita fruta vermelha e negra, especiarias (cravo e pimenta-do-reino) sobre ligeiro mentolado. No paladar o grande destaque fica por conta da qualidade vigorosa de seus taninos firmes, texturados e de perfil que confere sofisticação ao conjunto parecendo até um vinho de categoria superior. O nariz e a boca estão em plena sintonia, eis que na boca confirmou o frutado intenso anunciado pelo nariz, resultando num vinho agradável dotado de camadas de sabor. Madeira integrada (doze meses de amadurecimento em barrica de carvalho francês). Provavelmente está no auge de sua evolução e assim deve permanecer por mais algum tempo. O fim-de-boca é longo, prazeroso. Perfil que oscila entre o moderno e o clássico. Avaliação: 92/100 pts.+

José de Souza Mayor VRA 2015 – Blogdojeriel.jpg

José de Souza Mayor Vinho Regional Alentejano 2015 – Álcool: 14% – Região: Alentejo – Distrito de Évora – Conselho de Reguengos de Monsaraz – lote das uvas Grand Noir (proporção de 54%, variedade criada por Henry Bouschet, cruzamento das variedades Aramont e Petit Bouschet, sua expressão máxima no Alentejo é atingida nas regiões da Vidigueira e de Portalegre), Trincadeira (24%) e Aragonês (22%) – Preço: R$ 257,70 – Importador: Decanter –Elaborado com uvas pisadas em lagar e fermentadas em ânforas de barro, seguido de amadurecimento em barricas novas de carvalho francês durante nove meses e engarrafamento sem filtração. Análise organoléptica: vermelho-rubi profundo com reflexo violáceo e leve halo granada em formação. Aberto nos aromas com notas de especiarias, frutas negras, melaço de cana  sobre discreta nota balsâmica. Na boca seu perfil é clássico, com a pegada típica dos tintos alentejanos,  os taninos são macios e lhe conferem elegância. De grande concentração e musculatura, seu conjunto é equilibrado, com o álcool, acidez, fruta e madeira entrosados resultando num conjunto harmônico que revela um toque de elegância em meio à potência. Produzido com uvas de uma safra generosa no Alentejo, está a ganhar complexidade na garrafa, porque  é um vinho sabidamente longevo. Degustado pela segunda vez demonstrou enorme consistência. Avaliação: 91-92/100 pts.+

Cartuxa Évora 2014 – Blogdojeriel.jpg

Cartuxa Évora Vinho Regional Alentejano 2014 – Álcool: 14,5% – Variedades: Aragonês, Alicante Bouschet e Trincadeira – preço médio: R$ 180 – um dos Alentejanos mais conhecidos no Brasil, amadurecido 12 meses em tonéis e barricas de carvalho novo francês acrescidos de mais 12 meses na garrafa antes de sua liberação ao mercado, elaborado pelo Enólogo Pedro Batista que de há muito consegue manter a consistência deste vinho. Análise organoléptica: cor violáceo brilhante com reflexo púrpura, no olfato apresentou aromas complexos de frutas negras sobre mentol. Especiarias e um toque de ameixa também integram o conjunto. Na boca, além da subscrição total dos aromas, é um verdadeiro “clássico que se modernizou” segundo já anotou alhures o respeitadíssimo crítico português Rui Falcão. Taninos presentes, álcool generoso, acidez viva, fruta e madeira em integração num perfil intenso e potente que promete muita vida pela frente na garrafa. Avaliação 90/100 pts.+

Esporão Reserva 2015 – Blogdojeriel.jpg

Esporão Reserva DOC Alentejo 2015 – Álcool: 14,5% – Variedades:  Aragonês, Trincadeira, Cabernet Sauvignon e Alicante Bouschet – importador: Qualimpor – preço sugerido: R$ 160 – este vinho estagiou doze meses em barrica de carvalho americano (70%) e francês (30%). Após o engarrafamento seguiram-se mais doze meses de estágio na garrafa. Exibiu cor vermelho-rubi profundo com halo púrpura. Nariz aberto com ligeiro toque floral (violetas), mentol, especiarias (cravo) e uma nota de baunilha. Na boca seus taninos são intensos, finos e lhe conferem sólida estrutura e elegância. Álcool generoso. Muito boa acidez. Concentrado, a madeira permite a expressão da fruta. Notas de chocolate num perfil vigoroso, rico, fresco e  persistente.  Um vinho que no momento tem bastante fruta, mas que deverá apresentar evolução na garrafa nos próximos anos. Termina aveludado, sem arestas, com uma harmonia de fazer escola. Avaliação: 90-91/100 pts.+

Marquês de Borba Reserva DOC Alentejo 2014 – Álcool: 14% – Variedades: Aragonez, Alicante Bouschet, Trincadeira e Cabernet Sauvignon – Importador: Casa Flora – preço médio: R$ 450 – O tinto Marquês de Borba mais uma vez confirmou sua boa fama no Alentejo. Um tinto elegante e cheio de classe. Um ex-libris alentejano, cujo terroir se caracteriza pela quantidade de mármore existente no solo, pluviosidade adequada e pouca insolação. Também leva uma pitada de Cabernet Sauvignon que lhe lhe dá fruta, estrutura e elegância. Análise organoléptica: violáceo intenso, profundo, brilhante. Muito complexo no nariz com notas de groselha, licor de cassis e ameixa em profusão. A Cabernet Sauvignon está presente, todavia, sem as cansativas notas de pirazina e pimenta verde. Boca no mesmo diapasão, taninos cheios de virilidade sem macular o equilíbrio do conjunto. Acidez plena num tinto que tem “pegada”, persistente, finíssimo, elegante e sobretudo harmônico. Infelizmente, o preço deste clássico alentejano tem subido exponencialmente, tornando-o proibitivo para alguns bolsos. Avaliação: 92/100 pts.+

CONCLUSÃO –

Portugal, tem as condições ideais para produzir vinhos de classe mundial, sobretudo os do Alentejo. O clima consegue adicionar aos vinhos a componente de frescura e complexidade e o solo também revela-se apropriado para o cultivo da vitis vinifera como salientado pelo jornalista Alexandre Lalas. O cultivo de castas locais misturadas com francesas – aqui destaco a Syrah que parece ser a de melhor resultado – confere aos vinhos personalidade única. Mas variedades como Cabernet Sauvignon e Petit Verdot também dão resultados significativos nessa região. São vinhos superlativos em todos os sentidos e, amiúde, de preços relativamente acessível. Talvez seja por isso que Portugal se afirma com muita solidez na segunda colocação na venda de vinhos importados no Brasil. E, a qualidade emergente de brancos, rosés e tintos alentejanos fortalecem a presença dos produtores portugueses no cenário brasileiro. Basta uma passada de olhos nas pontuações acima. De nove vinhos, sete obtiveram notas acima dos 90/100 pts.!! Nenhum vinho ficou abaixo dos 87/100 pts. o que é um dado bastante significativo.  Também cabe salientar que alguns vinhos demonstraram consistência, dez vez que já foram provados mais de uma vez em curto espaço de tempo (cito, por exemplo, o José de Souza Mayor 2015 degustado em dois eventos em 2018, a saber: Vinhos de Portugal em SP 2018 degustação conduzida por Luís Lopes e agora no “Vinhos do Alentejo 2018 – o clássico e o moderno). 

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